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COLUNA DO MAGNO ANDRADE: Dedos limpos

Texto 8

Escrever! Ação que, para muitos, é chata, para outros, legal e para alguns ousados, prazerosa. Escrever para a mãe, o pai, o amor, o chefe, o aluno, o vivo, o morto... Escrever para aliviar a raiva (ou causá-la em alguém), para expressar uma paixão, anunciar um acontecimento, prestigiar uma pessoa, homenagear um preso (injustamente) político, externar uma tristeza... Escrever para começar ou terminar, para prosseguir ou parar, para admitir ou demitir... Uma carta, um e-mail, uma mensagem, um relatório, um TCC, um poema, uma receita, um lembrete, uma redação... No WhatsApp, no computador, no papel, na cartolina (para quem lembra dela), na areia, na parede...

A escrita é corriqueira para uns, difícil para outros, enfadonha para tantos e distante para 11,8 milhões de brasileiros adultos, considerados analfabetos pelo IBGE.

Tantas coisas poderiam ser ditas acerca da escrita neste e em vários outros textos, mas este ato simples torna-se em obstáculo para muitos brasileiros todos os dias. E minha avó era um deles (perceba o tempo do verbo).

Minha avó não pôde assinar seu próprio nome durante mais da metade da sua vida. Mulher, negra, mãe, empregada doméstica e “criada para ser esposa”. Dedicou-se ao pai (perdeu a mãe aos 7 anos) e depois aos filhos e ao marido (é também viúva, “graças a Deus”, afirma ela). Estudar e aprender a escrever? Para quê? Diziam muitos. Mas ela não pensava assim. Filhos criados e marido enterrado, ela decidiu estudar.

Eu estava na extinta 2ª série enquanto ela cursava a 1ª. Eu ajudava, quase todos os dias, a minha avó nos deveres de casa. Crescemos, como escritores e leitores, juntos.

A minha avó, na altura de seus quase 60 anos de dedicação ao outro, conquistou algo para si. Só para si. Que ninguém podia lhe conceder. Ela pôde parar de sujar os dedos toda vez que precisava de um documento e passou a assinar o seu próprio nome.

Para muitos, isto é tão comum e talvez não tenhamos nunca sentido emoção no ato de assinar os nossos nomes. Mas ela sentiu e eu pude fazer parte disso.

Escrever (e ler), além de tudo já citado, é um ato político. E nós, professores, somos os agentes condutores deste ato.

Que ler, escrever e fazer conta de cabeça façam parte de nossos compromissos básicos com nossos educandos e não só com eles, mas com todos em nossa volta. Que possamos nos inspirar em pessoas como a minha avó (creio que ela foi uma das maiores inspirações que tive para escolher essa profissão), que pôde limpar seus dedos, não se importando com a idade, e conseguiu mudar a história da própria vida. Afinal, é isso que fazemos: mudamos histórias de vidas, por meio de uma educação democrática, crítica, social e para todos.

(Eu sou o Magno Andrade, um jovem professor transformador e fora dos padrões, que acredita que uma educação pública, democrática e de qualidade é direito de todos e fonte para uma mudança social.)

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