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COLUNA DO MAGNO ANDRADE: Breve reflexão sobre a leitura em todas as áreas

Texto 5

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.”

Paulo Freire

A leitura, sabemos, é componente essencial para desenvolver cidadãos críticos. Paulo Freire já dizia que a importância do ato de ler implica em uma percepção crítica, na interpretação e na “re-escrita” do que foi lido (FREIRE, 1989). Essa habilidade primordial é ofertada, naturalmente, pelas pedagogas e pedagogos – na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I – e pelas professoras e professores de Língua Portuguesa – do Ensino Fundamental II ao fim do Ensino Médio e também para a Educação de Jovens e Adultos.

É claro que os discentes leem em todas as disciplinas. História, Filosofia, Geografia, Sociologia, Língua Estrangeira, Matemática, Química, Física, Biologia, Artes, Educação Física, Língua Portuguesa são pautadas, sobretudo, na leitura de textos e desenvolvem as habilidades de leitura de tabelas, códigos, gráficos, textos não-verbais, mapas etc. Porém, acredita-se, de modo geral, que é responsabilidade somente do professor de língua materna refletir as leituras criticamente e promover a possibilidade da interpretação de diversos gêneros.

E é neste ponto que pretendo refletir aqui: compete somente à disciplina Língua Portuguesa possibilitar aos alunos o desenvolvimento de suas competências leitoras?

Mesmo que o professor de Língua Materna oferte ao aluno a possibilidade de interagir com a leitura de vários gêneros, refletindo criticamente sobre eles, cabe também aos docentes das outras áreas levarem essa criticidade para a leitura dos textos que permeiam suas matérias. Isso ainda é constatado por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998, p. 31), que ressalta que “a tarefa de formar leitores e usuários competentes da escrita não se restringe [...] à área de Língua Portuguesa, já que todo professor depende da linguagem para desenvolver os aspectos conceituais de sua disciplina”.

Foi pensando nisso e buscando a realização de trabalhos interdisciplinares que, em 2015, eu, uma amiga, que também professora de Português, e a professora de Ciências resolvemos colocar em prática um projeto de leitura literária com alunos da Educação de Jovens e Adultos. Nas aulas de Língua Portuguesa, iniciamos, com os alunos, a leitura do livro Cinco anos sem chover, de Lino de Albergaria. A narrativa conta a história de uma família que fugia de umas das grandes secas que assolou o Nordeste brasileiro. Já a professora de Ciências, enquanto acompanhava a leitura dos alunos e também discutia/interpretava o romance, trabalhou o processo de tratamento da água com os alunos. O resultado foi apresentado em uma feira, na qual os estudantes expuseram as maquetes feitas nas aulas de Ciências e as fotonovelas produzidas nas aulas de Português.

Por meio dessa experiência, pudemos perceber o quanto é importante que as outras disciplinas também realizem atividades relacionadas à leitura e à escrita. Ficou claro, para nós, que letrar os alunos e possibilitar a eles uma visão crítica sobre as leituras que realizam nas diversas áreas pode fazer com que esses discentes evoluam e melhorem seus desempenhos escolares.

Um professor de Matemática, por exemplo, pode refletir com seus alunos sobre os sentidos que determinado enunciado causa e pedir que o discente conte, com suas palavras, o que ele entendeu. Dessa forma, o estudante, ao refletir sobre estes sentidos, poderá estabelecer as relações de causa e efeito empregadas no enunciado, tendo facilidade em resolvê-lo. Assim ocorreria também em Química, Física, Geografia e outras.

A leitura crítica, aquela que possibilita que reflexão sobre o que está sendo lido, é primordial para que a construção efetiva do conhecimento dos alunos seja de qualidade. Por isso, os docentes das mais diversas áreas precisam desenvolver trabalhos, projetos, planos de ensino – de preferência interdisciplinares – que tenham como foco a leitura (e a escrita) dos alunos, deixando clara a importância de se desenvolver as habilidades leitoras, críticas e interpretativas dos estudantes, de modo que eles tenham êxito nas situações comunicativas que os rodeiam, dentro e fora da escola.

Que, como profissionais da educação, possamos, todos, entender que a leitura não deve ser responsabilidade de um ou outro conteúdo escolar, mas que lutemos para que ela se torne, cada vez mais, um compromisso da escola e de sua comunidade. E que, assim, possamos ter uma geração de leitores-refletidores.

Referências

BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental: Língua Portuguesa. – Brasília: MEC/SEF, 1998.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989. 49 p.

(Eu sou o Magno Andrade, um jovem professor transformador e fora dos padrões, que acredita que uma educação pública, democrática e de qualidade é direito de todos e fonte para uma mudança social.)

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