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COLUNA DO MAGNO ANDRADE: A terra de ninguém

Texto 2

A vida de um docente é repleta de percalços: várias aulas no mesmo dia, alunos indisciplinados ou com dificuldades de aprendizagem, infraestrutura precária de algumas escolas, distância percorrida entre uma instituição e outra (já que a maioria não trabalha em um só lugar), alergia ao pó de giz, enfim, muitas questões perpassam pelo caminho docente. Porém, infelizmente, não é somente a prática cotidiana que apresenta desafios. Temos que lidar ainda com problemas sociais que afetam diretamente a nossa profissão.

Um dos problemas que temos que lidar é com o suposto domínio dos conhecimentos educacionais que muitos julgam ter. Pais discutem com professores e supervisores pedagógicos, líderes religiosos culpabilizam a escola pelo comportamento das crianças, governos alteram o cotidiano escolar sem aviso prévio ou discussão. Todos podem colocar a colher de pau nos processos de ensino e aprendizagem e na gestão escolar. E essas ações, muitas vezes, interferem de forma negativa no nosso trabalho. Não quero dizer que somos inquestionáveis. Ao contrário: nossa prática deve ser pautada no diálogo e na interação com toda a comunidade escolar, desde que haja a compreensão de que os especialistas nessa relação somos nós, afinal, dedicamos anos de nossas vidas para atuar naquele espaço.

Além disso, no Estado de Minas Gerais, tem se tornado comum encontrarmos jornalistas dando aulas de Português, engenheiros lecionando Matemática, publicitários assumindo o currículo de Artes, enfermeiros ensinando Biologia... Não duvido que esses profissionais possam dominar os conteúdos dessas disciplinas – e que há, de fato, afinidade entre as áreas –, mas assumir a regência de uma aula implica na ativação de dezenas de conhecimentos pedagógicos, sociais, metodológicos que somente os cursos de licenciatura podem ofertar.

Mesmo diante de todo o supracitado, podemos questionar: como profissionais de outras áreas conseguem atuar normalmente dentro de algumas escolas públicas? A resposta para essa pergunta me leva ao outro problema que quero pautar: a precarização institucionalizada da Educação.

Aqui em Minas (digo em Minas por não conhecer a realidade de outros Estados), graduados ou graduandos de qualquer curso podem solicitar a uma Superintendência Regional de Ensino o Certificado de Avaliação de Título (CAT), que é uma autorização para lecionar a título precário em escola estadual de Educação Básica. Munidos de tal documento, os acadêmicos concorrem às vagas para atuarem nas escolas. Este processo, chamado de designação, quando realizado antes do início do ano letivo, reúne profissionais habilitados para lecionar determinada disciplina (sejam eles licenciados na área ou não) e é nele que não licenciados têm acesso à sala de aula de forma institucionalizada, o que contribui para precarizar o ensino.

A educação acaba se tornando terra de ninguém e, ao mesmo tempo, de todos. Nossa área de atuação, muitas vezes, é vista como bico, como fonte de uma graninha extra. E isso faz com que sejamos menos valorizados pela sociedade, tirando as licenciaturas da lista de cursos de prestígio. Nós, professores, educadores e transformadores, precisamos mudar essa realidade, lutando contra a ideia do “notório saber basta para ensinar”, nos unindo contra decisões governamentais que nos atingem diretamente e criando um Conselho de Ética, que buscará uma regulamentação mais concisa de nossa atuação. Assim, talvez, consigamos mostrar para a sociedade a significação crítica existente no ato de ensinar, como diria Paulo Freire.

(Eu sou o Magno Andrade, um jovem professor transformador e fora dos padrões, que acredita que uma educação pública, democrática e de qualidade é direito de todos e fonte para uma mudança social.)

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