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COLUNA DO LUIZ RIBEIRO: Uma última atividade

Texto 21

Uma sala feita apenas com as falas dos alunos. Essa foi a frase que enviei no grupo dos alunos da disciplina em que atuei como professor convidado em um programa de pós-graduação neste semestre. Era a última aula, eu estaria sozinho em sala e deveria propor uma atividade que, ao mesmo tempo, proporcionasse a avaliação da disciplina, a finalizasse e permitisse uma catarse final das ideias discutidas ao longo do semestre.

A intenção era “boa”, me preparei, li todos os trabalhos que foram entregues ao longo do semestre, selecionei as frases que mais diziam de cada um dos alunos em cada um dos momentos vividos e transcritos em palavras. Procurei a ajuda de uma amiga para organizar um varal com todas as frases. O varal estava pronto. Já eram 19:05 horas e os alunos não haviam chegado.

Milhares de coisas passaram na minha mente. Tinha a sensação de que minha tentativa de postura transformadora já estava escorrendo entre meus dedos. Olhava a sala com aquelas frases penduradas, sem alunos. Resolvi mandar a mensagem no grupo de Whatsapp: uma sala feita somente com a fala dos alunos. E daí eles começaram a chegar para nossa atividade final.

Trouxe essa situação porque ela sintetiza o que vivenciei aqui na rede de Professores transformadores. Tive muita angústia e indecisão nos momentos de escrita ao pensar sobre o que esperavam sobre os meus textos. Tentei colocar no papel o lado mais humano da atividade docente, uma profissão com seus altos e baixos, com suas possibilidades de transformação e suas consequências para nossas vidas e subjetividades. E, diante de um ano intenso, com todos os feedbacks que recebi e todas as batalhas que travei e textos que consegui escrever, penso que foi um ano muito proveitoso, coroado com a minha participação aqui na rede.

O que a rede trouxe pra mim? Além da escrita, sistematizada e periódica, que me remeteu muito à organização e ao compromisso com os leitores, trouxe, por si só, mais compromisso com minha atividade docente. Comecei a perceber o quanto ela se faz presente em outros âmbitos da minha vida e o quanto é possível ser transformador em outros momentos para além da sala de aula, também sendo professor.

Estar aqui, junto de todos vocês, leitores, pensando em vocês e em minha atuação me fez ter mais identidade, procurar me sentir mais professor, afinal, eu estive me vendo mais como professor ao longo desse ano.

Eu queria sempre ter palavras transformadoras, mas o que mais aconteceu foi que isso tudo me transformou. Me despeço da rede, com um sentimento tão positivo e com uma satisfação tão grande que é inevitável me sentir diferente após estes 21 textos. Se, na minha sala de aula vazia, só existiam as palavras dos alunos, vejo que, aqui na rede, há várias salas – de aula, de estudos, da biblioteca, debaixo das árvores, em centros populares, ocas... – cheias de pensamentos, ações e sentimentos de professores, que me transformaram.

(Eu sou o Luiz Ribeiro, colunista da rede Professores transformadores. Nas andanças pelas estradas de Minas, me situo como psicólogo e doutor em Educação. Acredito que ser um professor transformador seja crer no potencial da educação para a melhoria do mundo.)

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