Return to site

COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: Toda poesia é inútil

Texto 49

Cheguei em sala para mais uma aula. Sobre a mesa do professor havia uma prova pronta, com uma nota relativamente baixa. Curioso, li a primeira questão e ela tinha uma das poesias do Eduardo Galeano que mais me impressiona, Viver sem medo. Ela começa épica:

Se você ama, terá AIDS / Se fuma, terá câncer / Se respira, terá contaminação / Se bebe, terá acidentes / Se come, terá colesterol / Se fala, terá desemprego / Se caminha, terá violência / Se pensa, terá angústia / Se dúvida, terá loucura / Se sente, terá solidão

Peguei a poesia, os estudantes me olhando e li com a melhor voz que pudesse empregar. Eles pararam de conversar por alguns momentos e ouviram. Quando terminei, lacrimejando, um estudante brincou: Okay, Fabiano, mas qual o sentido do “se” na poesia?

Perguntei se haviam lido a poesia com atenção. Se respiraram para sentir o que Galeano queria dizer. Se os versos haviam atingido o coração deles. Um segundo estudante soltou: A nota atingiu meu coração. A turma riu, eu sorri e deixei a prova sobre a mesa novamente.

Qual a utilidade de uma poesia em uma prova? Senti como se o poeta tivesse sido violado pelos estudantes. Desrespeitado. Mas, de fato, o que queremos com a poesia? E o que pensamos de uma poesia em uma prova? Nada importava, apenas a nota. O prêmio. A poesia ainda estava na minha cabeça:

Para ter fôlego é preciso ter desalento / Para se levantar tem que saber cair / Para ganhar tem que saber perder. / E temos que saber que assim é a vida / e que você cai e se levanta muitas vezes.

Imaginei esses versos que tanto me ajudam a lembrar que temos altos e baixos na vida e que, a cada sofrimento, fazemos florescer uma nova vontade. A angústia, quando te dá “bom dia”, quer dizer que já é hora de se levantar. Mas, naquela prova, a poesia tinha se tornado inútil. Não serviu para nada. Uma mera soma de desafios visando uma avaliação. Inútil.

Alguns caem e não se levantam nunca mais / geralmente os mais sensíveis / os mais fáceis de se machucar / as pessoas que mais dor sentem ao viver. / Os mais sensíveis são mais vulneráveis.

A fragilidade daqueles ao nosso redor. A fragilidade de nossas lutas, nossas poucas vitórias cotidianas, transformadas em pequenos milagres invisíveis, mas, para perceber que, em algum momento, um desastre vai retomar aquilo que conquistamos. Afinal, somos humanos e, por isso, finitos.

Em contrapartida, esses que se dedicam a atormentar / a humanidade tem vida longuíssima, não morrem nunca. / Porque não têm uma glândula, que, na verdade, é bem rara que chama consciência, / aquela que nos atormenta pelas noites.

E, por isso, é uma batalha eterna. Essa luta toda não cabe em uma questão de três pontos. A poesia, na segunda avaliação do bimestre daquela turma, se transformou em um conjunto de alternativas certas e erradas. Os riscos no papel diziam que não importava o valor da poesia, o que importava era o significado do “se” nos primeiros versos. O todo da poesia não era importante.

A poesia terminava maravilhando quem lesse:

Acho que o exercício de solidariedade, / quando se pratica de verdade, no dia a dia, / é também um exercício de humildade / que ensina você a se reconhecer nos outros / e a reconhecer a grandeza escondida nas coisas pequeninas. / O que implica denunciar a falsa grandeza nas coisas “grandiosas”.

As poesias são inúteis, sim! Em uma prova!

Abraços no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly