Return to site

COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: Quando perdemos a direção

Texto 38

No meu último texto, falei sobre a eternidade do ser professor. Tentei refletir um pouco nesse sentido para entender que essa eternidade precisa ser vista como um rumo para a docência afetiva (ou, como prefiro, amorosa) e que é cultivada nesse jardim de ideias que o estudante carrega. Mas, e quando perdemos a direção?

 

Um erro durante a aula. Um erro durante um diálogo com nossos estudantes ou entre nós, docentes. Como lidar com isso? Me recordo de uma conversa com minha querida mãe. Ela teve uma dedicação incrível na educação dos filhos, mesmo tendo terminado apenas o Fundamental. No diálogo, ela me perguntou:

 

– Você já errou em sala?

– Algumas vezes...

– E professor erra? – Perguntou ela, espantada. Eu ri com a pergunta. Mas, de fato: como é difícil aceitarmos os erros que cometemos, por menores que sejam! Olhar para uma turma e dizer errei aqui talvez seja tão difícil ou ruim quanto olhar para um amigo e dizer a mesma coisa. No primeiro erro, estamos no processo de docência e corrigir o caminho é necessário para que nossos estudantes não sigam por caminhos mais tortuosos. No segundo, salvamos a alma de uma amizade. Reconhecer nossas falhas é a grande dificuldade da docência, principalmente, quando deixamos o orgulho nos elevar por muito tempo.

 

A humildade nasce do sentimento de tristeza quando reconhecemos nossa impotência, nossa fraqueza. Essa definição é de Spinoza. E acho válida não apenas para a sala de aula, mas para cada momento de nossa vida. Não podemos ser levados por uma visão de poder, ou de autossuficiência ou mesmo de perfeição. Não estamos sem pecado, mas também não somos lobos que, selvagemente, em um Estado de Natureza, da melhor maneira hobbesiana de interpretar, buscamos orgulhosamente caçar uns aos outros. Há a necessidade de se perceber como humano.

 

Quando percebemos isso, encerramos o velho orgulho. Longe de ser uma força, então, longe de ser uma virtude, a humildade nos devolve a condução da razão. Uma leveza de ser, recuar e corrigir. Para nós, educadores, em qualquer posição, a humildade nos devolve a afetividade. Simplesmente, porque damos um limite à nossa força, reconhecemos nossa impotência diante de uma ação. E, se percebemos nossa impotência, descobrimos quem somos. Até onde podemos ir.

 

Essa conduta se dá em qualquer esfera de nossas vidas. Mas, na docência, percebo a necessidade de falar sobre isso. Explico, a docência é narcisista! Em qualquer grau dentro de um espaço focado no processo de aprendizagem, percebermos que trilhamos um caminho errado é a ação mais comovente, mais consoladora e, acima de tudo, a mais amorosa. Defendo isso. A humildade é um gatilho para a misericórdia, então temos um par. As duas, humildade e misericórdia, andam juntas contra a vaidade e contra o orgulho. E esse par dá a luz a Narciso.

 

A humildade é um estado da alma, defendia Spinoza. Não é virtude, porque demonstra nossa fraqueza, nossa impotência. Mas é o gatilho para a misericórdia e para uma ação afetiva. E essa é uma virtude porque exige que tenhamos a doçura do perdão. Vamos nos olhar mais. Dentro de nossas aulas, de nossas escolas e, acima de tudo, de nossas relações. E, no final, com humildade e doçura, abrimos caminhos para o diálogo. A docência não é um panteão, mas um caminho para a humanidade.

 

Abraços no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly