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COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: Precisamos falar sobre assédio

Texto 45

Entre tantas questões que a escola precisa lidar em seu cotidiano, o assédio é a que exige mais atenção. E, mesmo assim, ele sempre é colocado com uma delicadeza exagerada, que se torna um tabu. Mas as coisas precisam ser ditas e esclarecidas.

Não falar sobre assédio é reproduzir a dominação masculina sobre as mulheres, e isso tem representações coletivas e individuais. O resultado desse comportamento é a manutenção dos privilégios materiais, culturais e simbólicos de homens sobre mulheres. E esse tipo de diferenciação está distante de qualquer espaço democrático.

Vivenciei três situações que, nos últimos dois anos, me levaram a escrever este texto. Na mais recente, levei uma hora para levar um educador a entender que a relação entre professor e aluno é uma relação de poder. Por mais que haja a busca por um espaço horizontal e de diálogo, há uma relação de poder, e esconder um relacionamento com uma educanda, além de ser tóxico para ela, é assédio sim!

Após essa conversa, parei para pensar em outros momentos em que percebi isso nos espaços que compus. As relações de dominação são tão comuns que viraram cotidiano. São relações históricas e, por consequência, as tratamos como meras situações do dia a dia. Perceber a desigualdade (para simplificar a questão, embora haja muito mais a ser discutido) sofrida pelas mulheres é a representação das vantagens dadas aos homens em nosso sistema. E, na escola, um espaço de construção do indivíduo, esconder essa relação é manter a dominação masculina.

Um outro relato. Em uma avaliação de Filosofia, pedi para os estudantes uma redação com o tema Ética – havia dias que falávamos sobre o assunto. Durante a correção, recebi dois pedidos de ajuda de estudantes que estavam sofrendo assédio. No texto, relatavam o comportamento de um educador que pedia “um beijinho na barba” como moeda de troca para tirar dúvidas sobre sua disciplina. As estudantes não tinham coragem de ir até a gestão da escola fazer a denúncia e, então, me pediram apoio. Levei o caso para o grupo de gestores e a pergunta de retorno foi: Elas estão com nota baixa nessa disciplina? Buscar uma culpa na vítima é um padrão em nossa sociedade dominada pelo macho. Antes de qualquer averiguação, e precisamos buscar a verdade dos fatos, negamos a realidade. E como dizer que a denúncia era por causa da nota baixa? A nota baixa podia, muito bem, estar ali por causa desse comportamento do educador. Afinal, elas não queriam dar um beijo na barba para tirar dúvida. Era um absurdo!

Essa negligência reforça os abusos cotidianos. As brincadeiras e piadas de tons homofóbicos/sexistas, as brigas entre meninos necessárias para mostrar a virilidade para o grupo de machos, a fama de “pegador” e estar cercado por “belas” mulheres são exemplos desses abusos e que, em qualquer espaço educativo, são vistos como comuns. Esse comportamento precisa ser percebido e se tornar o centro de ações pedagógicas, só assim começamos a uma mudança verdadeira.

Precisamos fazer essa reflexão. Conduzir grupos de sensibilização para lidar melhor com essas questões. Não há a possibilidade de um espaço educativo, horizontal e democrático admitir a dominação masculina. Não podemos aceitar o assédio!

Abraços no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

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