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COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: Para começar um ano novo

Texto 39

No último conselho de classe de 2017, ficamos cerca de uma hora discutindo sobre a reprovação ou não de dois estudantes. Aprovamos um, reprovamos o outro. Quando o debate encerrou, uma querida colega deixou a seguinte pergunta no ar: O que vocês fizeram de novo para reprovar um e não o outro?

Essa pergunta bateu no peito. Passei as semanas posteriores pensando onde eu, como educador, errei. O que eu poderia ter feito de diferente para aprovar aquele estudante? Como poderia ter contornado a dificuldade cognitiva dele de forma que, na minha fala, de fato, pudesse apoiar a aprovação desse estudante? Por que um sim e o outro não? Tínhamos concluído que o problema era igual com ambos.

Essas perguntas me perseguiram por um tempo durante o recesso. Revirei o ano letivo, pensando em novas propostas de avaliação, em novas formas de lecionar. Retomei uma leitura há muito esquecida, Miguel Arroyo, em idos de 1992, que analisa o fracasso e o sucesso. A escola é uma instituição excludente.

O currículo já está pronto. A escola é rígida em sua avaliação. E há o estigma do mau aluno, esse estigma merece um texto mais profundo, volto a esse tema no futuro. Mas uma frase do autor me chamou atenção: “Os conteúdos obedecem a uma organização e a uma economia própria, a uma lógica e a exigências que se justificam por si mesmas, pela lógica da história de cada disciplina”. Sim, sempre essa conclusão.

Temos uma escola preexistente, que o estudante se adapte a ela, do contrário, que seja reprovado. O sistema poda a liberdade do educador, do estudante, da direção e de toda a comunidade escolar. Como estamos em um sistema pronto, esquecemos de nos reinventar, mesmo que isso seja o básico de qualquer aula durante a formação de professores – me diga, de verdade, quantas vezes tivemos a liberdade de nos reinventar, sem censura? E quantas vezes permitimos a um estudante inventar?

A escola é um jardineiro que poda novas ideias. E enfrentar essa realidade é pensar o novo ano letivo de forma diferente. Um exercício que exige dedicação e elaboração. Imagine! A cada dificuldade encontrada em sala de aula, você precisa se reinventar enquanto educador e, mais ainda, a cada inovação do estudante, você precisa refletir sobre a nova descoberta. Ou seja, se desprender do papel de detentor de todo conhecimento e entender que seu estudante não é uma tábula rasa. Há conhecimento em cada aluno e isso precisa ser percebido.

O que eu fiz de novo, verdadeiramente, para não reprovar aquele aluno? De verdade, nada. Não me reinventei ao ver o problema do estudante, são quase 40 alunos por turma, é difícil se reinventar e passivamente aceitei a dificuldade. Não me mobilizei para mudar a estrutura enrijecida da escola, pelo contrário, minhas avaliações demonstraram isso. E mesmo que eu entregasse outras avaliações para aquele estudante em que elas seriam diferentes? Não mudei minha forma de dar aula, não mudei a forma de comunicação para fazê-lo entender, talvez esse tenha sido o meu (nosso) erro mais pesado.

Eu me sentei e pesei as palavras de Arroyo: a escola tradicional é excludente. Essa estrutura faz o inverso do que deveria, travada no sistema, tiramos do estudante o seu direito de estudar. Então, o que fazer?

Não esquecer de se reinventar. E, ao mesmo tempo em que redescobria esse texto, uma mensagem de feliz ano novo chegava ao meu celular. Quase como uma epifania, li e memorizei as poucas palavras que seguem, em um belo texto de Gramsci: “Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia, quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me. Nenhum dia previamente estabelecido para o descanso. As pausas eu escolho sozinho, quando me sinto embriagado de vida intensa e desejo mergulhar na animalidade para extrair um novo vigor”.

Um fôlego para nos renovarmos sempre. Que seja um ano de reinvenções contra a escola excludente.

Abraços no coração!

Referências:

ARROYO, M. Fracasso-sucesso: o peso da cultura escolar e do ordenamento da Educação Básica. Brasília: Em Aberto, 1992.

GRAMSCI, A. Odeio o Ano Novo. In: BAJO LA MOLE. Fragmentos de civilización. Turín: Sequitur, 1916.

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

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