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COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: O professor voluntário

Texto 42

No final do ano passado, comecei a atuar na coordenação de um pré-vestibular comunitário. Já atuava antes nesse espaço como educador e agora o desafio seria outro. Mas esses meses de atuação me fizeram refletir sobre a forma como pensamos o conceito de trabalho.

Em geral, quando converso sobre esse tipo de atuação, escuto coisas do tipo: Você aceita trabalhar de graça?, Que trabalho bonito! ou Você tem um coração muito cristão, mas não sabe disso... Esses comentários são fruto da noção de que o ato de trabalhar é apenas uma atividade financeira. Necessariamente, o trabalho apenas é valorizado de acordo com o valor do contracheque no final do mês. E não, não é isso.

Trabalho é toda atividade que supre uma necessidade, psicológica ou física, do ser humano. Então, tudo é trabalho. E é por isso que o trabalho, muitas vezes, é colocado como uma virtude humana. Mas, necessariamente, o trabalho voluntário e, ainda mais, trabalhar em um pré-vestibular popular, não é pela virtude da atividade. Mas pela resistência.

Um responsável chegou ao espaço, explicou que está desempregado há quase um ano e meio e que não tem condições de arcar com um preparatório convencional. Uma estudante, trabalhadora, atua em uma rede de lojas das 9 às 18 horas, o salário não é suficiente, além disso, estudar por conta própria não está funcionando: Não me ensinaram a estudar – brincou ela. Esses são pequenos casos, mas todos estão ali, resistindo, buscando uma vaga para a universidade pública.

Atuar com essa galera não é um ato cristão, não é aceitar trabalhar de graça, muito menos dizer que tenho bom coração. É entender que nossa sociedade vive em um sistema injusto, onde o acesso às oportunidades é maior para quem tem melhores condições. Uma sociedade onde há desigualdade, em que toda tentativa de promoção à equidade é vista como um mimimi, como uma facilidade de quem não batalha. Precisamos conviver com um discurso sem coerência da meritocracia, onde o sucesso se dá através do esforço individual e o fracasso é apenas falta de coragem, preguiça.

Ou seja, é resistência. Quanto mais trabalhadores estiverem dentro das universidades públicas, mais teremos luta dentro e fora dessa universidade, que é pública, mas elitizada. A luta lá dentro, junto com a luta aqui fora, vão se somar e quebrar os muros que separam a comunidade desse espaço.

A educação precisa ser popular e libertadora. Dentro de um pré-vestibular popular ou em qualquer outro espaço. Nós, educadores, fazemos nossa parte sendo afetivos, então, vamos ocupar os espaços populares com nossos diplomas e pensar junto com a população. Se cairmos no discurso de que apenas o dinheiro pode mover o mundo, endossamos toda a desigualdade propagada e essa não pode ser nossa visão.

Abraços no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

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