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COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: Flores da Maré

Texto 41

Eu não conhecia Marielle. A primeira vez que ouvi falar dela foi na campanha eleitoral de 2016, esbarrei com uma grande amiga que, gigante em entusiasmo, bradava com uma bandeira amarela e vermelha pelo calçadão. Eu parei e ouvi sobre a trajetória da futura vereadora.

Depois daquele dia, acompanhei com curiosidade militante os discursos, os motivos e toda luta. Toda vez que ouvia falar no nome de Marielle, ele vinha carregado de um sentimento: ainda há possibilidades na política, ainda é possível fazer o bem pela via legalista. Que é possível reformar lá de dentro. Que a favela tem voz. Que a periferia tem vez.

Participei apenas de uma reunião com a vereadora. Havia muitos no mesmo salão. As críticas eram ouvidas com sinceridade. Algumas rebatidas com respeito e muito apoio. Sai daquela reunião com o coração renovado. Pela primeira vez, via uma representação pública para a periferia.

Não mataram Marielle. Tentaram matar toda a periferia. Tentaram nos calar. Voltar para nosso lugar. Política é coisa de branco, rico. O que o preto, pobre e periférico quer fazer na Casa Grande? O que o favelado quer na Cidade? A gente diz: derrubar isso tudo e reconstruir. Não aguentamos mais. Há um fascismo escancarado em todos os espaços, justo agora que nos fortalecemos, que ocupamos mais espaços. Não iremos recuar. Não podemos mais.

Aquela quarta foi sufocante. Na quinta gritamos: Não iremos ser sufocados! No ato ecumênico, oramos, em comunhão, cantamos e reforçamos o desejo de união. Não vamos deixar que o poder, ocupado por homens brancos e intolerantes, continue deixando sangrar nossa comunidade.

Professor ou professora, escrevo para te pedir. Nas próximas semanas, faça uma roda. Ouça seus estudantes. Fale sobre injustiça. Fale sobre a pobreza histórica. Desconstrua preconceitos. Faça cartazes. Fale de Marielle. Fale da periferia. Fale sobre resistência.

Só encontrei com Marielle uma única vez. Mas, hoje vejo quantos frutos estão na nossa comunidade. E ainda tem muita coisa para vir nessa Maré. Agora, mais do que nunca, precisamos ser fortes. Resistência! Desobediência!

Abraços no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

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