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COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: Esta geração não quer nada!

Texto 46

Cansei de ouvir esta frase na sala de professores. O discurso sempre é comparativo com a geração anterior ou com a geração do próprio educador. E a atual sempre é a pior. Desde o primeiro dia em que entrei na sala de professores, ouço essa frase. E a próxima geração é sempre pior que a anterior.

No mais recente debate em que entrei, minha amiga e uma das professoras que mais admiro, comentou: Fabiano, o que eu digo é que essa geração não tem paciência. Não batem à porta. Não esperam resposta. Essa geração é a pior.

Será mesmo? Vamos analisar por partes. Primeiro, provavelmente, os jovens de hoje têm pouca paciência mesmo. E faz sentido, se considerarmos o acesso à informação e a tecnologia. Hoje em dia, uma nova música, lançada do outro lado do planeta, tem estreia mundial, não precisamos esperar. Se você usa algum serviço de streaming, a nova temporada de uma série, por exemplo, sai no mesmo dia. Você não precisa esperar cada novo episódio. Antes, maratonar uma série apenas se você tivesse a coletânea em DVD e as coletâneas não tinham um preço acessível. Não vou me estender, fato é que a informação cruza o globo muito mais rapidamente hoje e, se assim é, provavelmente, a tecnologia influenciará a juventude, que consegue acessos rápidos e com qualidade cada vez melhor.

Tudo bem, talvez menos pacientes, mas será que essa geração é pior? Ou nosso problema é com a juventude de maneira geral? Quando concluía a 8ª série (hoje 9º ano do Ensino Fundamental), eu e um grupo de amigos queríamos uma dica de escolas técnicas para seguir com os estudos. Fomos perguntar a uma de nossas professoras se ela poderia tirar dúvidas e até orientar de acordo com a escolha de cada um. A resposta dela?

Vocês querem ir para uma escola federal? Eu duvido que vocês consigam alguma coisa, a sua geração é muito preguiçosa. Duvido que vocês vão terminar o Ensino Médio.

O poder de um professor sobre o estudante. Já se vão mais de 20 anos e ainda me lembro da cena. Da forma como ficamos desolados. Ainda assim, fizemos as provas e cada um foi parar em uma escola pública federal ou conseguiu uma boa bolsa para uma escola privada. De fato, anos depois, quando nos reencontramos, lembramos dessa frase e isso mexeu tanto com a gente que combinamos de levar nossos diplomas para ela apreciar. Nunca fizemos isso, claro! Mas ainda recordamos dessa frase do mesmo jeito.

O fato é que há sempre um conflito de gerações. Recentemente, chegou às minhas mãos um texto de um jornalista estadunidense Joe Gillard, A história de 2.500 anos de adultos culpando a geração mais jovem, em que ele apresenta 23 frases, com suas devidas fontes, de adultos culpando a geração posterior. A primeira começa com Aristóteles (século 4 a.C.) – “[Os jovens] têm a mente elevada porque ainda não foram humilhados pela vida, nem experimentaram a força das circunstâncias. [...] eles acham que sabem tudo e estão sempre certos disso.” – e a última falava da geração Milênio (anos 2000) retirada de um artigo, Proceeding with caution, da Time – “Eles têm dificuldade em tomar decisões. Eles preferem caminhar no Himalaia do que subir uma escada corporativa. Eles têm poucos heróis, sem hinos, sem estilo para chamar de seus. Eles anseiam entretenimento, mas sua atenção é tão curta quanto um zap de um mostrador de TV”. Até as gerações que apreciavam a leitura ou o teatro ou o xadrez foram condenadas.

O fato é que há o enfrentamento entre gerações. Seguindo uma lógica mais marxista, os conflitos sociais (classe social) estarão presentes em cada espaço de diálogo, e reproduzimos a ideologia quando reproduzimos a superestrutura. Nós, educadores, estamos muito presentes nessa equação. Inserindo alguns teóricos da Psicologia, os conflitos são parte das relações interpessoais, as contradições e antagonismos fazem parte do dia a dia. E o conflito pode impulsionar a mudança, pensar o contrário nos faz trazer o autoritarismo para dentro da sala de aula. Como já escrevi antes, a democracia é difícil. O diálogo é sempre mais cansativo.

Enfim, não é essa geração que não quer nada. Nós que ainda não percebemos a forma de usar esses conflitos e os recursos que a nova geração pode ter para mudar a nossa prática. Então, vamos respirar e tentar olhar pelo lado da nova geração. Quem sabe não construímos uma nova prática educadora juntos? Uma transformação!

Abraços no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

Referência

FERRIGNO, José Carlos. Coeducação entre gerações. Petrópolis: Editora Vozes, 2010. 233 p.

GILLARD, Joe. The 2500-yer-old history of adults blaming the younger generation. Disponível em: https://goo.gl/g1DiBw.

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