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COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: Educação em tempos sombrios

Texto 48

Estou escrevendo esse texto antes da eleição. Então, estou aqui especulando apenas os resultados que parecem surgir no horizonte. E não é o resultado que me preocupa nesse texto, mas como deixamos tanto o ódio tomar conta da sala de aula.

Cheguei a uma das escolas onde leciono, subi com meus diários, algumas provas não entregues e uma proposta de atividade para reflexão sobre as eleições. Assim que entrei na escola, vi um grupo de meninos com o adesivo do candidato do ódio, do fascismo. Subi a rampa e fui até a sala de aula. Um grupo de meninas, acuadas na sala de aula, debatia com um segundo grupo de meninos, todos igualmente adesivados, sobre a homofobia, o racismo e o machismo do candidato do ódio.

Os meninos riam, zombavam e menosprezavam durante o diálogo das meninas. Reprodução do machismo. Aguentei ver aquilo por uns minutos. Abandonei o planejamento e pedi para tentarmos conversar de forma menos caótica. Sugeri uma rápida troca de ideias e um debate, em que todos teriam espaço para argumentar, respeitando uma das nossas regras de convivência definidas em sala de aula: o respeito ao outro.

As meninas, como sempre, bem embasadas expunham as ideias. Os meninos, adesivados, riam. Por mais que eu tentasse, era impossível impedir as balbucias de raiva de adolescentes entre 15 e 16 anos. Foi assustador. A sensação de que todas as nossas aulas sobre direitos humanos, sobre a política, sobre sociedade foram em vão. O fato era que o candidato dos jovens machos era um “mito”. A soberba de ter um messias se aproximando da presidência foi o estopim para que tudo fosse abandonado. As meninas, acuadas, tentavam trazer a razão.

Uma das alunas mais aguerridas expôs sua posição muito claramente e conseguiu, perfeitamente, explicar seu ponto, deixando os meninos sem palavras. Até que uma saraivada de risadas e escárnio surgiu. Deixei a mediação de lado e fui para a demonstração clara. Os meninos respeitaram a voz de um homem mais velho, tentaram argumentar, agora sem escárnio, e eu, sem ironias ou sarcasmos, ouvia e expunha as contradições nos discursos dos garotos. Aos poucos, aqueles que não aguentavam ouvir os argumentos foram esvaziando a sala, saindo, uns pedindo permissão, outros nem isso. No fim, ficamos só as meninas e eu.

Uma delas, quase chorando me consolou: São burros, todos eles, professor.

Respirei fundo e respondi: O problema foi que alguém, antes de nós, os chamou de burros. Diminuiu o discurso. Riram ao invés de dialogar. Humilharam ao invés de argumentar com calma e paciência.

A autora Esther Solano escreve, em seu livro Ódio como política que nós, a esquerda, cheia de toda a certeza, abandonou o diálogo. Nos fechamos em uma bolha de segurança e de verdades absolutas e, agora, o ovo do fascismo chocou. Lidar com esses tempos sombrios será uma tarefa árdua e dolorosa.

Nossas certezas não cabem em uma urna, mas os próximos anos testarão nossas práticas, nossas forças e nosso diálogo. Agora precisamos lidar com o ódio em diversos espaços. Mais do que nunca, a sala de aula precisa ser um espaço de transformação para acabar com o ódio que deixamos ocupar o nosso jardim.

Hoje e sempre: #EleNão!

Abraços no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

Referência:

GALLEGO, Esther Solano (org). Ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018. 128 p.

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