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COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: A palavra errada

Texto 40

Quando ainda estava na faculdade de Educação, perto de me formar, apresentei um trabalho onde comparava o professor a Dédalo e o estudante a Ícaro e a Talo. Conhecem a história? Faço um resumo.

Dédalo era um brilhante e engenhoso artesão e engenheiro de Atenas. Seu era nome conhecido por toda a Grécia. Tendo alcançado a fama, toma seu sobrinho, Talo, como aprendiz, mas esse se mostra mais talentoso e criativo que seu mestre. Com inveja, Dédalo mata seu sobrinho e, em seu cárcere, foge para Creta, onde, mesmo livre, se torna prisioneiro dos desejos de Minos, rei de Creta. Sempre em busca de uma liberdade verdadeira, Dédalo constrói asas e, junto com seu filho Ícaro, alcançam os céus. Mas esse, encantado com a liberdade de voar, esquece o conselho do pai e se aproxima demais do Sol, a cera das asas derrete e Ícaro cai no mar, morrendo.

O professor é Dédalo porque, em sua função, pode sufocar a criatividade e a engenhosidade dos estudantes ou, então, estimular aquela liberdade que faz o estudante alcançar os céus, mas, sem sensatez, faz a queda ser muito dura para suportar. Esses dois gestos podem conduzir ao fracasso nossos estudantes. Mesmo uma palavra errada pode ser a causa.

Eu faço um contrato de convivência na minha primeira aula. Aponto cinco pontos importantes e peço que os estudantes escrevam mais. Um desses pontos sempre é o respeito. Precisa haver respeito entre todos nós na sala de aula, esse é o primeiro degrau para a tolerância e para uma aula horizontal. Um degrau para a autogestão de fato. Mas, se houver uma falha, perdemos muito. E essa falha pode ser uma palavra errada.

Em uma das minhas aulas, no ano passado, fiz uma brincadeira usando uma explicação ateísta para a questão da religiosidade. Foi uma pergunta sensível de uma aluna: Como vocês, ateus, explicam as religiões espíritas? Era uma conversa informal, em uma aula que já estava no final. Eu estava cansado. Respondi, de forma bem-humorada e com nenhum respeito à religiosidade apresentada. Alguns riram, a aula acabou. A aluna sumiu das minhas aulas.

Durante o bimestre inteiro, não vi mais a estudante. E não refleti sobre meu ato até algumas semanas atrás, quando, em uma postagem de Facebook, ela direcionou uma crítica direta, em um meme. Foi quando entendi tudo, a minha resposta naquela aula foi como estrangular tudo o que representava o espaço da sala. Não houve respeito da minha parte para com essa estudante. E, por mais que eu saiba que o meu cansaço, de um final de dia, tenha sido um fator nesse erro, o resultado da equação é maior. Uma palavra errada, vinda de um professor, pode por a perder toda a trajetória de uma boa aula, de um bom curso e de uma estudante.

Em uma conversa privada, essa estudante me disse como é a luta contra o preconceito com sua religião, e como doeu ouvir aquela resposta de um professor, em tom zombeteiro, em uma questão que ela luta tanto. Confesso que lembrava exatamente da aula e do motivo da minha fala, mas, naquele momento, esqueci completamente o quanto podemos sufocar nossos estudantes com palavras. Com essa arrogância dedaleana, achamos que é possível falar certas engenhosidades sem ferir.

Rude engano. Tentamos superar os obstáculos, mas não podemos perder o bom senso de que, enquanto professores, precisamos cuidar dos que nos ouvem. A palavra errada pode queimar mais que o Sol.

Então, querida Beatriz, peço desculpas. Este texto é inspirado na nossa conversa, mas também é para te dizer que nossa conversa me transformou. E espero que transforme outros professores.

Abraços no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

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