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COLUNA DO FABIANO CACHAMORRA: A eternidade do ser professor

Texto 37

Em um dia chuvoso, resolvi tomar café da manhã em uma padaria que fica próxima à minha casa. Me recordo de ouvir a chamada do primeiro bloco de um certo telejornal quando o meu gole de café foi interrompido com uma carinhosa mão tocando meu ombro.

– Professor Fabiano? – Com um sorriso no rosto, vi um antigo estudante da EJA e sua esposa, que também tinha sido minha aluna. – Podemos tomar um café com o senhor?

– Desde que não me chamem de senhor, tudo bem! – brinquei.

Durante a conversa, o casal me contou como até hoje se divertem com uma expressão usada por mim em sala de aula, o mâs. Um dos erros mais clássicos dos meus estudantes era confundir, durante a escrita, o mas e o mais. E, mesmo que eu passasse 20 minutos da aula explicando e exemplificando, o erro persistia.

Minha solução foi mudar a minha forma de falar, dando uma expressão cômica a essa conjunção: mâs! Com olhos arregalados e boca bem aberta, aumentava o tom para deixar a conjunção coordenativa de adversidade bem estereotipada.

Durante o café, os meus ex-alunos disseram que, no encontro da turma, além de todos os alunos brincarem com a expressão, o filho de cinco anos de uma estudante brincava da mesma forma. Após boas risadas e a confirmação de que nunca mais erraram o uso dessa conjunção nos textos, o aluno pediu minha opinião sobre a escalada da violência e o que eu acho sobre o período da Ditadura Militar.

Confesso que o café perdeu um pouco de sabor, as coisas não andam legais... Pedi que eles me dessem a opinião deles primeiro e eu tomaria nota para ajudar. Durante a conversa, percebi muito das minhas aulas de Sociologia nas falas, algumas coisas novas, de novas pesquisas, novas constatações. Nesse momento, percebi que nossa profissão, o Professor ou Professora, tem uma eternidade em nossos estudantes.

Vejam, não é imortalidade, mas eternidade. Explico a diferença. A ideia de imortalidade é de continuidade do tempo, é vencer a morte e estar imanente (inseparável) a esse mundo. A eternidade, por outro lado, está fora do tempo, fora desse mundo. Ela transcende o próprio ser.

Pela própria função transformadora da educação, nos preocupamos com a forma como o estudante percebe o mundo, o conteúdo ou o objetivo daquela aula. E contemplamos os efeitos dessa nossa obra na formação dos estudantes. Durante seu tempo na escola, podemos perceber o quanto estamos presentes nessa trajetória, depois, quando eles se vão, ainda estamos. Sendo transformados por novos professores, a semente que plantamos germina em um jardim cheio de novas ideias, transcende, mas, ainda assim, é uma parte de nossa essência, estamos ali.

Perceba que todo ser humano é eterno. Sua obra transcende com a família, com os amigos. O médico cura a doença, o advogado ajuda uma causa (justa ou injusta). A diferença de nossa profissão para as outras é a de que não partimos de uma causa ruim. A doença para o médico, a injustiça para o advogado. O professor vislumbra o futuro. E esse está no seu estudante. Por isso, não podemos ser pessimistas na educação. Precisamos lutar e ensinar a lutar.

Mesmo que a gente perceba que não podemos mais, ainda podemos em nossos estudantes. É um exercício de humildade, já que o aluno pode não perceber que sua contemplação teve início na sala de aula, mas, ainda assim, é nossa centelha de vida em cada estudante.

Um abraço no coração!

(Fabiano Cachamorra, professor, filósofo, sociólogo e idealista da educação amorosa. É professor do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é sobre isso que escreverá para vocês às segundas.)

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