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COLUNA DO DANILO SVAGERA: A arte do eterno

Texto 1

Hoje, dia 26 de junho, comecei a tomar café. Escrita em 1993, letras cursivas e infantis, havia mais coisas entre tais palavras e o mundo do que este humilde escritor poderia imaginar. Mas “partamos” do início – como todo parto (socrático), devagar e constante.

Sempre admirei educadores. Talvez, por tanto me marcarem, acabei tornando-me um (e apaixonado pelo que faço). Desde meu início no ato (pois todo educador também é, no fundo, um ator), me fascinava compreender o papel da voz e das palavras no processo – o grave, o agudo, o suspense e a alegria. Tudo, numa mais completa ordenação sonora, ditava o ritmo das aulas. Contudo, aos poucos, me apercebi de algo que, certa forma, incomodava: a palavra falada, capaz de fascinar os ouvidos mais atentos, se dissolvia no ar. Sim, as palavras proferidas são capazes de marcar a alma – um bom discurso produz efeitos catárticos! –, mas parte se perdia. Cada educando tomava para si os pedaços da linguagem e interpretava (e reinterpretava!), levando em conta suas vivências e mundo. Na rapidez do ritmo, a audição capturava um ou outro som. Mas jamais todos.

Mas isso é fascinante!, pensava este que vos escreve. Por qual motivo poderia algo que marca a alma não ser grandioso? Contudo, o café, do início do texto, mudaria minha vida.

Vasculhando antigos cadernos encontrei, certa vez, uma capa verde, cujo título Doces sonhos, me chamara a atenção – e resolvi checar o que viria a ser aquele misterioso objeto. Dentro, escritos, dos mais diversos, diga-se de passagem. Eram memórias feitas ao decorrer de um ano, propostas pela minha então professora. Li cada linha e lá encontrei germes do que hoje sou: havia poesias, cartas para o amanhã, reflexões (oras, já novo me sentia filósofo!). E, então, o café me surge – como uma torrente de emoções e assombros: a palavra, ali escrita, era a marca de uma descoberta. Sim, a concretude do ontem, visto 25 anos depois. Pus-me a pensar e logo concluí: a fala pode marcar a alma, mas a escrita é a arte de eternizar o momento. É através dela que nossa história se torna legado, que apresentamos nosso mundo àqueles que virão. Longe da fala não conter marcas do passado: porém, para o esquecimento, a maior arma ainda é a escrita.

Hoje, dia 26 de junho, comecei a tomar café. Nada mais poderia negar: naquele dia, o verbo entrava para história. No mínimo, nesta história.

(Eu sou Danilo Svágera, professor graduado em Filosofia e mestre em Educação. Um ser que acredita no criticismo como a finalidade educativa, no diálogo como a ponte do saber e no respeito mútuo como fundamento escolar. Admirador e consultor de pedagogias de vanguarda – em suma: que acredita, desde o início, numa extrema diferença entre “ser” e “estar” Educador.)

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