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COLUNA DA TANCICLEIDE GOMES: O erro, meus alunos e eu

Texto 2

O erro, por motivos que desconheço, me provoca um grande fascínio. Não que eu não seja capaz de me deslumbrar com a beleza de uma performance divinamente realizada ou com uma orquestra que harmonicamente nos embebeda. Não me debruço a procurar os erros, mas quando eles acontecem, especialmente durante a aprendizagem, me importa entender o que levou os alunos a cometerem-no.

Aquele pequeno deslize, aquela peça faltante, aquele pequeno elemento que não se alinhou com o resto: por quê? O que aconteceu ali? Recentemente uma amiga defendeu uma dissertação em que abordou a reflexão sobre o erro no aprendizado de programação de alunos no Ensino Superior. Em minha área (estou cursando um doutorado em Ciência da Computação), os desafios encontrados em experiências iniciais de ensino de programação têm sido amplamente estudados por mais de quatro décadas, e ela resolveu observar sob esta perspectiva particular.

E ficou claro como a luz do Sol o quanto eu ainda subestimo as maravilhosas oportunidades de usar os erros dos meus alunos como um suporte para a construção do conhecimento deles. Senti vergonha de mim, confesso. Li a dissertação e me senti de algum modo feliz, mas ainda não totalmente confortável.

Embora eu concorde com a perspectiva de perceber o erro de maneira diferente, destituído de seu caráter punitivo ou como uma “mácula” na trajetória de aprendizagem, vi que ainda não desenvolvi meios adequados para ajudar os meus alunos a não apenas encararem de maneira mais leve, mas utilizarem o erro como mola propulsora para aprender mais.

Me senti efusivamente convidada a desconstruir não apenas a maneira como vejo o erro em sala de aula, mas como os meus alunos e meus pares veem. Me senti estimulada a proporcionar um ambiente em que meus alunos pudessem não apenas errar sem se sentirem pressionados, mas errarem e poderem refletir como e porquê aquele erro aconteceu e ajudarem os colegas a fazerem o mesmo.

Projetar um espaço em que meus alunos pudessem se sentir confiantes para entender que a vida é um processo de aprendizado constante e que iremos errar muito nesse processo. Que, naquele espaço, ele não precisa competir com ninguém para acertar “de primeira”, que ali ele pode errar e vai poder contar comigo e com os seus colegas para pensar sobre o que saiu fora do esperado.

Que importa mais entender o que o levou a errar do que apenas acertar na tentativa seguinte. Sério! Existem poucas coisas que eu considere tão interessantes quanto a justificativa de um aluno mediante uma determinada escolha, seja numa prova de múltipla escolha, seja na ação de um jogo, seja numa brincadeira. Entender o raciocínio desenvolvido.

Quero que eles saibam que tudo bem se entristecer ou mesmo chorar por algum resultado que não saiu do jeito que ele queria, mas que ele não pode desistir de si mesmo. Que se ele comete poucos ou muitos erros ao longo do seu percurso de aprendizagem isso não define quem ele é.

Ele não é o erro, ele é apenas humano.

(Sou a Tanci Gomes, pesquisadora, professora e sempre aprendiz.)

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