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COLUNA DA TANCICLEIDE GOMES: Minhas férias 

Texto 1

Quem nunca precisou escrever uma redação intitulada “Minhas férias” que dê a primeira reaction negativa ou feche a aba. Quase todos os mortais que eu conheço consideraram essa como umas das tarefas mais entediantes da vida escolar.

 

No alto da falta de criatividade, de disposição, fosse qual fosse o motivo, algum professor(a) nos obrigava a empanturrar as famintas linhas em branco com qualquer texto sem muita relevância. Sorte de quem tinha tido recessos gloriosos, mas, para muita gente que não tinha muito o que escrever, todo aquele processo era bem enfadonho.

 

Quando me tornei professora, ser aluna tomou um significado diferente, minha perspectiva mudou e eu estava do outro lado da sala. O ato de olhar uma mesma situação sob as duas nuances começou a invadir o meu cotidiano. Nesse meio termo, me peguei pensando na tal redação e achando tudo isso um completo absurdo.

 

Não pela redação em si, mas pelo processo de reproduzir a situação antes considerada indesejada: porque comecei a imaginar que, em algum momento, aquele professor(a) foi aluno e escreveu a mesma famigerada redação. Quem sabe ele escreveu resmungando, ou reproduzindo aqui e ali trechos de filmes americanos da Sessão da Tarde, misturando com experiências de outros ou apenas elaborando invencionices. No lado esquerdo da folha, talvez as numerações mal apagadas denunciassem a aflição com a quantidade de linhas. Talvez ele(a) tenha escrito com letras maiores ou com mais espaços entre as palavras.

 

Mas minha inquietação tem mais a ver com tentar entender onde ou quando exatamente a gente começa a se perder para que tornemos o que algum dia já detestamos tanto. Custo a entender porque, em algum momento, nos tornamos reflexos, ainda que momentâneos e ocasionais, de situações que experimentamos na pele, mas não nos fizeram bem, que não nos fizeram crescer, nem florir, nem amadurecer, muito menos aprender.

 

Estou preocupada em como nos acostumamos com algumas rotinas que minam nossas energias e tiram o foco de quem realmente importa: nossos alunos. Quando a gente insiste na abordagem que não funciona porque ela foi muito recomendada pelo consultor educacional ou porque todo mundo usa. Ou quando a gente repete a explicação do mesmo jeitinho, porque era a nossa carta na manga, o jeito mais facinho de entender aquele assunto: como assim ele(a) não entendeu?

 

Tem momentos que a gente apenas incorpora chatices mais modernas e descoladas: pode ser aquela tecnologia educacional que se tornou tendência, mas que precisa de uma calibrada para encontrar espaço na relação que criamos com nossos alunos e a gente não percebe.

 

Nos decepciona quando o recurso diferentão se torna mais encantador para a gente do que para os alunos, e a gente resiste porque os resultados quantitativos de outros contextos asseguram sua efetividade educacional – mesmo que aquilo não tenha o menor significado para os nossos alunos.

 

Não importa se agora os alunos criam peças de teatro sobre os recessos escolares ou se irão redigir no tablet e entregar por e-mail. Importa a razão pela qual a gente faz o que faz, importa não manter um ciclo improdutivo. Seja novidade ou não, qual o motivo de adotar (ou manter) a ferramenta ou a abordagem? Imagina junto comigo: se a criança que a gente foi ontem pudesse ser nossa aluna hoje, como iria ser?

 

Por que muitas vezes se torna tão complicado ser o tipo de professor(a) que a gente gostaria de ter tido? Pode ser a rotina. Cansaço. Falta de criatividade. Limitações de infraestrutura. Restrições da coordenação. Medo de errar. Tendências. Pressão.

 

Não sei. Confesso que não tenho respostas prontas para isso, mas, certamente, quero receber os palpites de vocês. E desejo que, nesse novo ano, a nossa criança do passado se orgulhe do adulto do presente.

 

Bom, como meu recesso escolar ainda não se encerrou, vou ficar devendo minha redação.

(Sou a Tanci Gomes, pesquisadora, professora e sempre aprendiz.)

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