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COLUNA DA NÍBLIA SOARES: As crianças que passaram por mim

Texto 5

No Brasil, o Dia das Crianças é próximo ao Dia dos Professores. Nosso país, já há algum tempo, vive uma crise sem precedentes, e a educação tem padecido com inúmeros problemas. Propostas, programas novos, currículos: nada falta. Eu poderia, então, agora, explorar o termo “falta” dentro de uma linguagem psicanalítica. No entanto, decidi escrever sobre as crianças que passaram por mim. Afinal, o tudo e o nada passa por elas.

Como a minha experiência como professora é extensa, foram muitas e muitas crianças. Ainda me lembro da primeira turma para a qual lecionei. Minha idade: 18 anos. Havia passado em um concurso público em Contagem, uma cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. Aquele foi, certamente, um dos anos mais marcantes da minha vida... Eu me identificava com aqueles olhinhos no primeiro dia de aula: éramos iguais, cheios de expectativas, medos, dúvidas, alegria e de vontade de começar!

Eu errei muitas e muitas vezes. No final do dia, no ônibus a caminho da faculdade que acabara de começar, eu chorava. Não escondia, não sentia vergonha, apenas chorava. Sentia que não sabia o que fazer, o que estava fazendo, como conduzir todas aquelas novidades que haviam chegado na minha vida. Sentia-me demasiadamente responsável pelas crianças, pela vida delas, até pelo que ia acontecer no futuro de cada uma. Eu era uma menina e demorou um tempo para descobrir que havia limites, mais do que gostaria que houvessem.

Minha coordenadora na época, competente e sensível, foi quem me deu norte, apoio, segurança. Como sou grata! Aos poucos, fomos compreendendo que o processo de aprender era de todos, mas que eles possuíam uma professora. E, durante o ano, foram muitos abraços, cartinhas e famílias vindo até mim, das mais diversas formas e com as mais diferentes demandas. Eu tentava atender a todos da melhor forma que podia. E parei de chorar no ônibus.

Aquela era uma turma de 2ª série, hoje chamada de 3º ano. Tenho algumas fotos deles e ainda me lembro do nome de muitos. A saudade é imensa. Com o passar dos anos, tive notícias de um ou outro, algumas muito felizes, outras nem tanto. Entre faltas, alegrias, choros, aprendizados, erros, presentes, estudos, ônibus, crescemos todos. Ao final daquele ano, eu era outra pessoa e é por eles, para eles, o escrito de hoje.

(Eu sou a Níblia Soares, colunista da rede Professores transformadores. Sou professora de crianças que acredita na educação positiva e na afetividade como parte do processo de aprender. Mãe! Pedagoga, psicopedagoga e especialista em Psicanálise, transformo vidas diariamente. Essa é a minha paixão.)

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