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COLUNA DA MICHELLE RISTOW: Porque eu estou gostando

Texto 5

Em todas as manhãs, na Wish School, escola onde aprendo e atuo, existem os momentos das provocações como parte de um convite. Duas premissas são importantes para as crianças participarem dessas provocações: o interesse e a vontade.

Dia desses, recebemos uma criança nova na escola. Ele veio de uma escola tradicional de São Paulo e ainda está se adaptando ao novo espaço, aos novos amigos e, por consequência da mudança, a uma forma transformadora de se fazer educação. Para proteger sua identidade, seu nome não será revelado aqui, mas, toda vez que me referir a ele, neste texto, usarei o nome “Gael”, que significa “belo e generoso”, exatamente como enxergo cada uma das crianças que chegam a esse mundo.

Gael sentou-se ao meu lado e a provocação que ele escolheu foi a da “aquarela”.

Os materiais disponíveis na mesa eram tão simples quanto a beleza da provocação. Aquarelas, pincéis, copinhos com água, pedaços de papel Canson que lembravam um pequeno retrato, folhas para enxugarmos os pincéis, e nós ao redor de uma mesa.

Gael começou seus traços e senti o quanto ele estava envolvido com a aquarela. Pincelava de um lado para o outro, optava por diferentes cores, molhava seu pincel e um novo traço fazia em sua arte. O movimento só ilustrava a beleza de uma manhã colorida, suave, serena e tranquila.

Até que Gael me fez uma pergunta: Eu acho que isso que vai acabar, né? Confesso que, de início, não entendi sua pergunta, e devolvi: Acabar? Como assim? Acabar o quê? Ele me respondeu: Ah! Isso aqui, de pintar. No momento em que ele me disse isso, eu procurava entender, em rápidos segundos, a lógica para aquela fala. De início, me assustei, mas ainda não sabia o porquê dele estar falando aquilo, então, novamente perguntei: Mas por que você acha isso? E Gael me disse: Porque eu estou gostando.

Fiz um rápido silêncio para tentar discernir aquela fala.

“Porque eu estou gostando” é que vai acabar? Porque eu sinto contentamento, satisfação, bem-estar é que tem que acabar? Quais são os reflexos que os nossos comportamentos adultos e institucionais geram em nossas crianças e em nós? Não estamos acostumados a esse tipo de fala na Wish, mesmo porque defendemos cada parte do processo pelo qual a criança vai constituindo sua aprendizagem, seus saberes e, principalmente, seus gostos e aptidões. Olhamos com respeito e atenção os seus movimentos e somos ouvintes generosos de suas falas. Porém, percebo que, quando recebemos alguma criança vinda de um sistema educacional muitas vezes engessado, conservador e autoritário, as falas assustadas ou que questionam a própria liberdade de ser da criança são notórias.

A questão maior é que fiquei pensando que Gael chegou a esse mundo há nove anos, e outros questionamentos se fizeram presentes em mim: quem está colocando esse receio? Quem passou para o Gael que gostar de algo significa que isso vai acabar? O descontentamento só foi maior porque sei a resposta. Não é sobre achar culpados, mas é sobre falar a respeito. Questionar. As nossas atitudes, decisões, escolhas por modelos arcaicos de educação e de pensamento, falta de leitura de mundo, de olhar para outros contextos, falta de nos autoeducarmos e de estarmos dispostos a “sair da bolha”, falta de um diálogo generoso com as crianças e adultos, a nossa amabilidade em baixa, a nossa discórdia em alta.

Continuei com os meus traçados e, por um minuto, não vi mais sentido nas cores da aquarela que estava colocando ali. Gael, por sua vez, continuava a colorir. Continuava a se expressar. Gael “continuava”. Ele decidiu continuar contente, satisfeito e feliz, mesmo na angústia da sua pergunta.

Confesso que tenho me assustado muito com os tempos opacos e confusos, mas também faz parte de uma decisão minha aprender com Gael e potencializar minha decisão de seguir me transformando, colorindo e me refazendo. Não é sobre a criação de um mundo perfeito e nem um paraíso na Terra, mas sobre olharmos para o nosso movimento de vida, escolhas e decisões na tentativa de impedirmos que um inferno se instale. Sigamos!

(Eu sou a Michelle Ristow. Transformadora de mim mesma. Uma sonhadora consciente da realidade e esperançosa por natureza. Acredito na relação que oferece espaço, promove autonomia e considera o lugar de fala do outro. Gosto de aprender brincando, ouvindo histórias e conversando.)

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