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COLUNA DA MICHELLE RISTOW: Educação é relação

Texto 1

Na minha experiência como educadora, eu tenho visto, a cada dia, o quanto a Educação é relação, justamente por não estar posta, definida, congelada e imutável.

Me relaciono com os meus estudantes, com os outros professores e colaboradores da escola, e, muitas vezes, percebo que não estou atenta para o que uma verdadeira relação solicita, e que, em resumo, para mim, é: abrir-se para o outro e compreender o lugar que ele fala, que ele está naquele momento e que ele acessa.

Porém, com tantos estudantes confiados a mim, com tantos outros colaboradores que circulam e convivem comigo, pergunto: é fácil abrir-se todos os dias para cada um deles (sejam as crianças, adolescentes ou adultos) e tentar compreender cada um? É tranquilo tentar olhar para onde cada um está naquele momento ou de que forma se encontram em cada situação do dia? Eu mesma respondo: não. Não é fácil. É muito delicado e difícil. É doído, é cansativo, é um processo de “puxa e solta”, é um ir e vir sem fim. É um autoconhecer-se e também reconhecer os meus limites dentro das tantas relações que vivo.

Educação demanda tempo porque, além de envolver duas pessoas ou mais, o que já é complexo, não é o que eu quero que prevalece sobre o que os outros querem. É o que combinamos juntos, é o que estabelecemos juntos, é o que co-criamos em conjunto.

A contramão disso é acreditarmos em fórmulas prontas e em pessoas prontas. Lá no fundo, pensamos que o que hoje deu certo, dará certo amanhã, e no outro dia, e na semana que vem, e no próximo mês, e com todas as pessoas de forma igual.

Fomos ensinados a pensar, sem tempo para fazer perguntas. Nos mostraram que há respostas para tudo e excelência nas formas que já estão estabelecidas. Nos confirmaram que, se encontrarmos todas as respostas, ganhamos o troféu. Sempre nos apresentaram uma linha de chegada, como se ela devesse existir. Esqueceram da disciplina que eu acho que deveria ter em qualquer escola ou universidade do mundo, a disciplina do vazio, do ócio, aquela que, por si só, cria, emerge.

Fazemos parte de uma roda que acreditamos que não pode parar de girar e que não permite algumas escapatórias. Uma vez que entramos nessa roda, o recomendável é ficar e continuar rodando. Caso contrário, não fazemos mais “parte”.

Nessa automatização da qual vivemos, acreditamos que as pessoas são iguais todos os dias e até que irão compreender, em segundos, o que em nós já está enraizado pela maturação do tempo. Estamos tão acostumados a olhar a falta que perdemos a beleza que pode emergir com o que o tempo é capaz de promover.

Às vezes, demoramos anos para descobrir que todos nós estamos em construção a cada dia, por meio das experiências que nos atravessam e das trocas que fazemos uns com os outros. Humano é humano em qualquer lugar. Seja em casa, na rua, nos estabelecimentos, nos tantos lugares que existem, como também na escola.

Nossa capacidade de se relacionar ainda é tão pequena que, se não tivermos um olhar sensível e generoso, promovemos conflitos em nós mesmos, nas nossas crianças, nos adolescentes e nos outros adultos apenas por deixarmos de compreender que qualquer relação é baseada em aprendizado, cultivo e construção.

Permitir-se conhecer o outro e conhecer-se na experiência com o outro com autorresponsabilidade é ser sincero com o que eu desejo e com o que eu não desejo. É estabelecer os meus limites e apresentá-los. É também saber dizer que hoje preciso da sua ajuda porque não estou dando conta e permitir que o outro peça ajuda no tempo dele. Inúmeras vezes, aceleramos a nós e ao outro. Ficamos angustiados pelo outro e esquecemos que o processo é dele, e que os ganhos e as perdas fazem parte desse processo também. Não é se isentar. É estar, mas permitir que o outro construa o seu caminho. É um exercício diário desacelerar quando nos dão tantas expectativas para cumprir.

Mais desafiador ainda é reconhecer que a escola é um lugar de força, um cabo de guerra ativo de reconhecimento das potências e possibilidades que emergem a partir das pessoas que constroem este espaço. Quando afirmo que a Educação é relação, é um convite generoso para não perdermos a sensibilidade daquilo que fazemos. É uma tentativa de despertar a nossa consciência para a energia que dispomos em cada relação e com o trabalho de costura que vamos tecendo na criação do vínculo com aquele que ali, presencialmente, está.

(Eu sou a Michelle Ristow. Transformadora de mim mesma. Uma sonhadora consciente da realidade e esperançosa por natureza. Acredito na relação que oferece espaço, promove autonomia e considera o lugar de fala do outro. Gosto de aprender brincando, ouvindo histórias e conversando.)

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