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COLUNA DA MAURA BRITTO: Tem jogo do Brasil. Vai ter aula?

Texto 11

De 4 em 4 anos, a gente passa pela mesma coisa: a Copa do Mundo de Futebol.

Paixão Nacional desde que eu me entendo por gente, o futebol, assim como a seleção brasileira, vira assunto central em mesas de bar, em almoços de família, no trabalho, na sala dos professores e também na sala de aula.

Quando acontece de o evento ocorrer em um país que tem o fuso horário muito diferente do nosso, aí a confusão está feita. Escola, banco, comércio, tudo para! Outro dia, eu estava andando pelo centro da cidade no horário do jogo e não via ninguém. Um ou outro desavisado perambulando sem rumo, surpreso com as portas fechadas em pleno horário comercial. Na escola em que trabalho, tentou-se conciliar aula e jogo: teve aula até o recreio e, depois, o jogo foi transmitido dentro da escola, com telão e pipoca. Mas, na última segunda, como o jogo ia ocorrer entre os turnos da manhã e da tarde, a própria Secretaria de Educação decretou que não haveria aula. E teremos mais um sábado letivo para repor a carga horária.

Creio que, mais importante do que ficar discutindo se deve ou não ter aula em dia de jogo, deveríamos aproveitar o evento pra discutir alguns assuntos em sala de aula, para além daquele padrão “bandeiras, características geográficas, cultura, língua, história” dos países participantes do evento, como sempre ocorre. E também não acho que seja o caso de querer boicotar o evento, usando o argumento que temos tantos outros problemas para os quais os brasileiros não dispensam tanta atenção quanto ao torneio. É possível gostar de futebol, vibrar com as vitórias do país, chorar só pela lembrança do 7x1 e também estar atento ao que acontece em nosso país, entre uma Copa e outra. A gente precisa parar de achar que toda diversão é apenas “pão e circo” e alienação. A gente precisa se distrair, ficar alegre por “nada”. Diversão não é luxo nem supérfluo. Nossa saúde mental depende desses momentos de abstração, que buscamos no esporte, assim como na arte.

Minha proposta é que a gente aproveite o evento da Copa para discutir situações que se repetem diariamente e que, na Copa, ganham mais visibilidade. Por que não aproveitar o episódio lamentável da postura que os torcedores brasileiros tiveram com a jornalista russa para discutir sobre assédio com os alunos? Que não é porque tem Copa que se pode puxar mulheres pelo braço, tentar beijar (como aconteceu com uma outra jornalista, brasileira) ou usar o próprio idioma como forma de ofender gratuitamente outra pessoa. Para discutir sobre homofobia, quando os jogadores adversários são chamados pelos torcedores, com frequência, de “viados” e outros termos pejorativos, no intuito de desqualificar o atleta, como se a orientação sexual fosse uma ofensa ou um defeito. Para combater o racismo nosso de todo dia, quando bananas são, frequentemente, são lançadas no campo para agredir jogadores negros. Essa discussão sobre racismo tem acontecido nessa Copa, inclusive entre vários times europeus, compostos por imigrantes africanos naturalizados, que têm sido hostilizados pela torcida. Por que não usar a Copa para promover a igualdade de investimentos e visibilidade nas duas seleções brasileiras? Porque a feminina já é heptacampeã da Copa América! Por que não usar a Copa como forma de tentar modificar comportamentos preconceituosos que se repetem em nosso cotidiano, em todos os dias do ano, todos os anos. Não só em ano de Copa do Mundo.

Acredito que a discussão maior que se deve fazer em tempos de Copa não é sobre estarmos perdendo dias letivos, ou se é válido ou não torcer. O problema não é não ter aula no dia do jogo. É o que a gente deixa de fazer entre uma Copa e outra. Porque a Copa do Mundo, em si, é mesmo um evento muito legal!

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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