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COLUNA DA MAURA BRITTO: Tem dias que a gente acerta

Texto 10

Na última semana, passei por dois episódios que me fizeram refletir sobre o impacto que causamos na vida das pessoas. Em sala de aula, isso é ainda mais marcante, uma vez que, a cada ano letivo, passam por nós em torno de 150 estudantes. Então é preciso estar atento às nossas atitudes, pois elas podem marcar a vida de nossos alunos... para o bem e para o mal. Felizmente, os dois episódios que contarei aqui são de lembranças positivas!

Há alguns anos, trabalhei no CEFET – Campus Itabirito, para as turmas de Mecânica e de Informática Industrial, do Ensino Médio Integrado. Foi uma experiência e tanto dar aulas de História em um curso profissionalizante, da área de Exatas. Não foram poucas as vezes em que fui questionada sobre a “utilidade” da minha disciplina, uma vez que a grande maioria que estava ali já tinha projetado seu futuro para as engenharias da vida. Mas, em cidades do interior, as escolas federais, ainda que profissionalizantes, também são uma oportunidade para alunos de escolas públicas fazerem um Ensino Médio de qualidade. Muitos de meus alunos tinham essa expectativa e pretendiam concorrer pelo ENEM em áreas diferentes do que cursavam ali.

Em minhas aulas sempre houve muita interação com os alunos. Falo bastante! E ouço também. Minha perspectiva de ensino de História parte do princípio de que o conteúdo só tem sentido quando é contextualizado no presente. E, nessas atividades de contextualização, sempre discutíamos sobre os temas da atualidade. Cotas nas universidades, projetos políticos numa sociedade capitalista, marxismo x socialismo real, machismo, feminismo, orientação sexual, liberdade de expressão, arte! Eram os “parênteses”! Quase colchetes e chaves, em algumas ocasiões.

Nesses momentos, alguns alunos participavam mais. Falavam sobre o tema, concordando, discordando... Outros ouviam atentos, sem se manifestar. Havia também aqueles que estavam em sala e em outro lugar na cabeça, e os que pareciam alheios à discussão. Digo “pareciam”, porque nem sempre conseguimos entender o que nossa fala causa nos alunos. Porque não existe uma reação padrão. Falar é uma reação. Silêncio é uma reação. Indisciplina é uma reação. Indiferença é uma reação. E cada aluno elabora a informação recebida de uma maneira.

No último fim de semana, me encontrei com uma ex-aluna, do curso de Informática Industrial. Pela maneira como ela se comportava em minhas aulas, eu acreditava, até então, que ela estava entre os alunos que estavam alheios às minhas aulas. Me tratava muito bem, mas não parecia interessada no que eu dizia. Parecia. Assim que ela me viu, já deu um grito – Maaaaaaaaaura!!! – e veio à minha direção, me deu um abraço. Depois, conversando, me contou que está cursando Medicina e me agradeceu: Você me ensinou a ser gente! Você me ensinou mais que História, me ensinou a ser cidadã! Eu quase chorei! De alegria, de ver como ela estava hoje, e sensibilizada por minhas aulas terem tido esse impacto para ela, e à época, eu nem ter percebido! Me senti um pouco relapsa com isso e ficarei mais atenta daqui pra frente!

O outro episódio aconteceu nas minhas aulas dessa semana. No último mês de maio, houve um remanejamento de aulas e fui trabalhar em um distrito de Mariana: Barroca. Eu não conhecia o lugar até ser transferida pra lá. Sabia que era uma comunidade pequena, remanescente de quilombo. A escola fica bem na saída da cidade e o transporte nos deixa lá dentro do colégio. Então, eu sempre chegava direto na escola sem passar pela cidade. E me incomodava isso de não conhecer o lugar onde trabalho, onde moram meus alunos.

Estamos trabalhando, ao longo do ano, um projeto interdisciplinar de respeito ao patrimônio e de identidade. Fiquei pensando: como eu vou discutir o patrimônio local com eles, se eu não conheço o lugar? A partir daí, preparei, com os alunos do 6º ano, uma atividade externa: eles foram meus guias para conhecer a Barroca. Vi a casa de todo mundo, a igreja e os preparativos da Festa de Santo Antônio, as minas d’água, e teve até uma visita à oficina de panela de pedra do Seu Nem, pai de uma das alunas, que nos mostrou todo o processo de feitura artesanal. Após a visita, nossa tarde terminou com um piquenique no campo! E cheia de risos e alegria!

Pensar nesses dois episódios mostra a importância da aproximação com os alunos, do planejamento da aula, mas, sobretudo, de dar sentido ao que fazemos a partir de vivências práticas! Fui pra casa nesses dois dias com aquela sensação boa na cabeça: É, tem dias que a gente acerta!

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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