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COLUNA DA MAURA BRITTO: Sobre a violência e a banalidade do mal

Texto 7

Algumas vezes, a sala de aula pode ser um lugar de choque. Choque de geração, de vivência, de realidades sociais.

Na última sexta feira de abril, estávamos fechando as atividades de recuperação do 1º bimestre. No último horário, após terminarem as atividades, alguns alunos se aproximaram da minha mesa e ficamos conversando.

Gosto de abrir esses parênteses. Ouvi-los e falar sobre coisas que nada têm a ver com nota de prova ou mesmo com o conteúdo. Não faço o tipo de professora “legalzona”. Não forço simpatia para conseguir as coisas. Sou séria com meus compromissos escolares, mas sempre deixo um canal aberto com os alunos. E tenho tido resultados valiosos nas relações humanas com essa postura.

Mas vamos ao episódio que me levou a escrever sobre esse tema. Enquanto conversávamos, um aluno se aproximou e veio me mostrar um vídeo, dando gargalhadas. Achei que era algo muito divertido, a considerar a reação do aluno. Minha surpresa ao ver a cena foi enorme: o vídeo dava close na cabeça de um homem morto, literalmente sendo cerrada, decapitada.

Empurrei o telefone em um reflexo de susto e aversão ao que estava vendo. Demorei alguns segundos para processar aquela imagem e, imediatamente, já queria apagá-la da minha memória. A questão agora era definir como agir dali em diante. Como agir, enquanto professora, de maneira construtiva naquela situação.

Perguntei ao aluno que mostrou o vídeo, de maneira firme, se ele sabia o que estava exposto ali. Que aquilo era um assassinato; que era um ser humano, como ele, como seus pais, seus amigos, que estava ali sendo decapitado, enquanto ele dava gargalhadas. E a resposta dele foi instantânea: Na favela é assim, fêssora: matou, roubou, estuprou, corta a cabeça! Tentei argumentar que nada do que aquela pessoa tinha feito justificava o ato. Que vivemos em sociedade e que é necessário que exista uma norma comum para que possamos coexistir. Do contrário, será sempre a lei do mais forte. E o mais forte de hoje pode ser o mais fraco de amanhã. Falei da diferença entre justiça e justiçamento. E que a pessoa que cortava a cabeça do outro não era menos “bandida” do que o que estava sendo decapitado.

Ao mesmo tempo, falei sobre a questão do vilipêndio de cadáver e que também é crime compartilhar imagens de pessoas mortas. Alguns alunos se manifestaram, dizendo que também não gostavam de receber esses vídeos e que nem abriam. O aluno que ria no início da conversa continuava rindo. E dava outros exemplos do que acontecia com quem entrava nessa vida.

Não sou inocente, não vivo em uma bolha cor de rosa. E também não tenho uma visão romanceada sobre a vivência da juventude das periferias do Brasil. Sei do genocídio da juventude negra e pobre, pela polícia e pelo tráfico, que ocorre todos os dias. Vidas que não tiveram as mesmas oportunidades, que não têm acesso aos serviços do Estado, mas sobre quem o braço repressor do mesmo Estado nunca deixa de cair. E, por isso mesmo, fiquei realmente chocada e devastada com a banalização da vida humana e com a naturalização da violência. Pensei em como o acesso à informação precisa ser pensado na adolescência, não como um cerceamento fascista às liberdades individuais, mas também não deve ser visto como natural o fato de jovens de 13 anos, e até menos, terem acesso fácil e irrestrito a esses conteúdos através de seus celulares, em um clique!

Me senti impotente diante do conjunto de fatores externos à minha condição de pessoa e de professora que interferem nessa situação. Me veio à mente Hannah Arendt, em Sobre a violência:

“O debate entre aqueles que propõe o uso da violência para restaurar ‘a lei e a ordem’ e aqueles que propõem a não-violência, começa a soar, sinistramente, como a discussão entre dois médicos que debatem as vantagens relativas da intervenção cirúrgica ou do tratamento clínico do paciente. Quanto mais doente supõe-se estar o paciente, mais é provável que o cirurgião tenha a última palavra.”

Também, de Arendt, a questão da “banalidade do mal”. O argumento de que “era a lei” – seja qual for a origem dela – ou de que “estava cumprindo ordens” não nos exime da responsabilidade ética sobre os resultados de nossas atitudes.

A minha responsabilidade ética sobre essa realidade exige de mim que esse texto não se encerre por aqui. E que a discussão proporcionada por aquele vídeo continue enquanto houver pessoas rindo da morte alheia, em qualquer condição que ela ocorra. Não entendi bem ainda como agir sistematicamente para ressignificar esse episódio e tudo o que ele envolve. Mas acredito que esse relato já é também uma forma de absorver e, pelo menos, de tentar modificar essa realidade. Ainda que seja apenas para aquela minha turma de 9º ano ou apenas para que aquele aluno não consiga mais achar graça em uma cena como aquela.

Referência:

ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Trad. André Duarte. Rio de Janeiro: Relume – Dumará, 1994, p. 55.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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