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COLUNA DA MAURA BRITTO: Racismo, silenciamentos e a voz que nunca cala

Texto 8

Escrevo hoje pedindo licença para falar de um assunto do qual preciso sempre ouvir mais do que tomar protagonismo no fato: a permanência do racismo nas falas de crianças, adolescentes e adultos, dentro e fora da escola.

Venho de uma família de classe média branca, como tantas outras em que ser ofendido pela cor da pele é algo que, durante muito tempo, dizia respeito aos outros. E, por isso, disse no início que pedia licença para falar do assunto. Sim, porque jamais sentirei “na pele” uma realidade que sei que existe e que já presenciei em diversos momentos. Sei que a cor branca é um privilégio no Brasil. Que eu nunca vou ser abordada de maneira ríspida pelo segurança de um supermercado apenas por perambular pelas gôndolas de shampoo (o que faço sempre!), que ninguém se espanta quando digo que sou professora, ou me confunde com um funcionário de uma loja. Parece clichê, mas todas essas coisas – e outras bem mais graves – acontecem diariamente com jovens negros por aí.

Escrevo hoje, para a cara gente branca que, como eu, nunca perdeu nada na vida por causa da cor da sua pele.

A construção desse espaço de diversidade e de reconstrução e valorização da história e cultura negra, tão fundamental e que vem acontecendo nos últimos anos, precisa sair do papel, da definição de leis protetivas e adentrar, de maneira consistente, o universo escolar e a vida em sociedade.

Em diversas ocasiões, em nossas aulas, percebemos surgir comentários pejorativos em relação a características referentes à população negra: expressões como “cabelo ruim” para se referir ao colega que tem cabelo crespo, ou o uso do termo “mulato” para se referir aos filhos de negros com brancos. São situações que são corriqueiras e que precisam ser discutidas pelo professor assim que acontecem. Muitos dos casos de racismo que, lamentavelmente, ainda presenciamos são resultado de uma prática de omissão e silenciamento do erro quando ele acontece, argumentando-se que aquilo “era brincadeira”. Não é. Como professores, desde a primeira idade de nossos alunos, temos o papel de corrigir quando essas manifestações, fruto de racismo, são expressas, mostrando porque isso deve ser combatido. Crianças não nascem racistas e esses comportamentos são perpetuados à medida que se repetem sem que seja discutido o problema em sua origem. Crianças que tenham a orientação devida sobre respeito à diversidade e combate a toda forma de preconceito não se tornaram adultos racistas, não se julgarão melhores que os outros pela cor da pele ou por qualquer outra característica.

Sabemos que são inúmeros os casos que acontecem nesse país e que têm alguma repercussão, que viram processos judiciais, mas que são sempre recorrentes. E esta é a questão: o que fazer para que esses casos não se repitam? É preciso discutir sobre isso durante todo o ano letivo, não somente em datas específicas. A história e cultura africana, assim como a contribuição dos negros em nossa sociedade, precisa ser valorizada e amplamente discutida em sala de aula. Mesmo entre professores, encontramos, às vezes, resistência a tal tema. Na escola, sempre que se trabalha o Dia da Consciência Negra, tem a turma da “consciência humana” esbravejando que todos somos iguais, que não precisamos ficar falando nisso... Não somos todos iguais enquanto não formos tratados como iguais! Enquanto formos permissivos com tais ofensas direcionadas aos outros, simplesmente porque nós, cara gente branca, nunca seremos tratados assim.

É preciso ter empatia e sentir a dor do outro, para que essas coisas definitivamente parem de acontecer. Não existe contexto para esse tipo de ofensa. É crime, é racismo e deve ser combatido por todos nós. A escola precisa abraçar de vez essa causa – para além das definições da Lei no. 10.639 – para a construção de um espaço de reflexão da diversidade de nossa sociedade e do respeito às diferenças. Espero que, um dia, possamos partilhar de uma sociedade realmente igualitária, onde nossas diferenças nos acrescentem e nunca mais sejam utilizadas como forma de diminuir o outro.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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