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COLUNA DA MAURA BRITTO: Quanto vale a palavra de um professor?

Texto 18

Há alguns anos, uma certa emissora de televisão produziu uma minissérie que tratava sobre a trajetória – pessoal e política – de um presidente do Brasil. Na série, o presidente era um homem que despertava paixões. Sua vida pública era marcada por relacionamentos extraconjugais e pelo fervor político que ele despertava em seus eleitores, assim como em seus adversários. Mas a minha lembrança dessa obra de ficção não se fez em razão do personagem do presidente, mas de sua esposa. Ela era professora universitária, formada em História. E tinha abandonado a carreira acadêmica para acompanhar o trabalho do marido. Em função de sua formação, como primeira dama da nação, ela era muito ativa nos projetos educacionais da gestão do marido presidente.

A referência a essa série se fez pela verossimilhança de uma situação vivenciada pela classe dos professores na obra e no nosso momento atual. Na obra ficcional que citei, teve um episódio em que a primeira dama visitava o gabinete do ministro da Educação. Naquele momento, estavam expostos, para análise, livros didáticos de História que seriam distribuídos para as escolas públicas de todo país. A primeira dama professora, indignada, constatava que aqueles livros estavam “ensinando errado” a História do Brasil.

À época, me lembro que indignada fiquei eu, como professora, pelo desserviço que a série prestava à imagem do professor brasileiro, classe já tão pouco valorizada, apesar do consenso sobre sua importância. Parece que os roteiristas da série não sabiam que quem escolhe os livros didáticos a serem trabalhados nas escolas brasileiras são os próprios professores.

A cada três anos, recebemos vários exemplares selecionados previamente pelo Ministério da Educação, e nós, após análise do material, escolhemos aquele que desejamos utilizar em nossa escola. Ao divulgar em uma obra fictícia a ideia de que os livros didáticos utilizados nas escolas públicas do país ensinavam errado, a série corroborava também a ideia de que os professores são incompetentes e que é por causa deles, e somente deles, que a educação no país apresenta índices tão baixos nas avaliações internas e externas. Será que nós, professores, não temos discernimento suficiente para avaliar o material com o qual trabalhamos diariamente? Será que nós, professores, apenas repetimos o que está no livro didático sem realizar nenhuma análise crítica sobre o que está ali posto?

O episódio fictício, que tanto me causou revolta à época, não chega nem perto do desrespeito que, como classe e indivíduos, nós, professores, sofremos nos últimos meses com a divulgação excessiva, nas redes sociais, sobre a existência de um material didático que supostamente “ensinava homossexualidade aos alunos”. Para além de toda discussão científica e pedagógica que se faz acerca da imposição de comportamentos sociais a pessoas, determinados por seu sexo biológico e da necessidade gritante de desenvolvermos o respeito à diversidade, o caso do “kit gay” mostrou ser, antes de qualquer coisa, um desrespeito à figura do professor.

Será que os pais e a sociedade realmente pensam que os professores não são capazes de avaliar se um material é impróprio para a faixa etária dos seus alunos, no que se refere ao seu conteúdo? Quantos professores foram às mesmas redes sociais dizer que nunca haviam recebido aquele material e que nada daquilo tinha acontecido? Eu mesma o fiz inúmeras vezes! E nunca era o bastante... A palavra do professor sobre o seu próprio trabalho não tinha nenhum valor! Foi preciso o Tribunal Superior Eleitoral se pronunciar sobre a questão, afirmando que o tal material nunca existiu e que nunca foi usado em nenhuma escola do país. Mas ainda tem gente que repete, repete e repete. Porque a palavra do professor sobre o seu próprio trabalho não vale nada para a sociedade brasileira...

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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