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COLUNA DA MAURA BRITTO: Primeira aula: quem aprende?

Texto 1

Primeiro texto do ano.

Primeira experiência como colunista depois de 16 anos de formada. Dezenove anos de sala de aula.

As estreias! Sempre com aquelas borboletas na barriga quando se trata de falar sobre o que a gente gosta. Sobre o que a gente acredita.

Lembro-me da minha primeira experiência como professora. 1999. 18 anos. 2º período da faculdade. 15 dias de substituição ao professor titular. Outra cidade. 36 aulas por semana. Pânico! Eu nem tinha deixado de ser aluna ainda e estava li: a professora nova da escola.

Primeiro momento em que a gente percebe o quanto a formação do professor não nos prepara para a realidade da sala de aula. Não vou me estender aqui nos problemas estruturais da escola regular, porque não é o foco deste texto. E porque tais problemas também não foram o suficiente para impedir nem a prática da inexperiente professora, nem a doçura da lembrança da professora que hoje, não é mais tão nova, nem tão inexperiente.

Quem já trabalhou pela rede estadual de Minas Gerais sabe como funciona o “leilão” das designações. O edital de vagas é lançado com 24 horas de antecedência e os interessados devem comparecer à escola com a documentação exigida para concorrer à vaga.

Sabe-se que, geralmente, em cidades pequenas, próximas às áreas rurais, havia poucos professores habilitados, então era possível ter essa vivência de trabalhar na área da Educação enquanto se fazia a faculdade. A vaga que consegui era na cidade dos meus avós, a 70 quilômetros de minha casa, em Itabira-MG, onde eu morava com meus pais e estudava à noite. Assim, fiquei esses dias na casa de minha avó e, à noite, ia pra faculdade no transporte oferecido pela prefeitura aos estudantes da cidade.

Concorri à vaga ao meio-dia. Às 13 horas eu estava na sala de aula. Assim, sem preparar nenhum material, com uns 10 diários de classe amontoados nos braços, e um livro didático de cada série em que eu ia lecionar.

Primeira aula: 6ª série (o que hoje corresponde ao 7º ano). Quarenta alunos numa sala onde caberiam, bem acomodados, apenas 25. Calor senegalês de Ferros-MG, no mês de outubro. E agora, José? Era eu ali na frente e 80 olhos atentos esperando o que eu ia dizer. Sim, porque, mesmo em turmas agitadas, o primeiro contato com a professora é aquele silêncio, um misto de curiosidade e um teste de até onde eu posso ir? Comecei me apresentando e pedindo a eles que se apresentassem. E fui fazendo aquele jogo de guardar os nomes pelos lugares, repetindo um depois do outro, assim que eles se apresentavam, fileira por fileira. Ao final, falei o nome de todos. Esse joguinho da memória, imitando a anedota grega, ajudou a quebrar o gelo e gastou um pouco do tempo, afinal, seriam duas aulas germinadas de 50 minutos na mesma turma.

Naquela ocasião, a matéria era “Expansão marítima europeia”. Adoro planejar essa aula até hoje! Terminadas as apresentações, nos próximos 40 minutos, me ative a falar sobre os interesses europeus em descobrir novas terras para ampliar o comércio das especiarias. Para isso, desenhei um mapa no quadro de giz com os países envolvidos no comércio, os oceanos, e tracei os caminhos escolhidos por Portugal e Espanha para chegar às Índias. Quarenta minutos de aula expositiva para adolescentes de 13 anos: quem faz isso, meu Deus! Eu fiz, sob um silêncio sepulcral. Em um dado momento, percebi algumas coisas:

- O silêncio era mais susto do que atenção: Do que essa mulher tá falando?;

- Aula expositiva é um excelente instrumento. Mas, usada de qualquer maneira, serve mais para o professor saber o quanto ele sabe da matéria do que para os alunos a aprenderem;

- A tática de repetir os nomes pelos lugares funciona;

- Estar em público, falando a estranhos, é um exercício de autoconhecimento;

- Dedicar sua vida a estar num papel central na formação de outra pessoa, é uma responsabilidade que só não é maior que a satisfação que essa função nos traz.

E o dia seguiu bem, após essa primeira aula. Muitas e muitas aulas depois, me formei, continuei estudando e nunca mais saí da sala de aula. Já trabalhei em três turnos, com 30 minutos de almoço e menos de seis horas de sono por dia. Hoje, não faço mais isso. Ainda estou aqui, na sala de aula, e feliz com o que faço. Não dou mais aulas expositivas de 40 minutos. E aprendi, lendo e fazendo, que ser professor é nunca deixar de ser aluno.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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