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COLUNA DA MAURA BRITTO: Pertencimento e identidade: sobre Educação Patrimonial

Texto 6

A continuidade de meus estudos me levou de volta à minha cidade natal: Itabira. A terra de Drummond, o poeta maior, que também fez parte de minha aventura nas primeiras letras.

No caminho do Arquivo Público, passei na porta da escola onde fui alfabetizada, e me vieram à mente lembranças do cotidiano escolar, no início da década de 1980. A história de Itabira já fazia parte de minha rotina, na escola e na minha vivência.

Das minhas lembranças de Itabira, guardo o trem passando de meia em meia hora no quintal de casa, carregado de minério de ferro, serpenteando montanha a fora, a perder de vista.

“O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo

Meu coração itabirano.”

As impressões que tenho até hoje sobre o lugar de onde vim, depois de 14 anos fora de lá, me fazem valorizar ainda mais o trabalho de Educação Patrimonial em minha prática docente. A noção de patrimônio está intimamente ligada à questão da identidade, e é papel da escola também contribuir para a consolidação desse sentimento de pertencimento entre os alunos.

Como professora de História, sempre me preocupo em desenvolver projetos que estabeleçam esse elo entre o aluno e o lugar de onde ele vem. História local. Não como um roteiro de grandes homens e acontecimentos políticos da cidade, mas como uma sensação de pertencer a algo que é maior que nós. E que nos liga às outras pessoas que estão ali.

Independentemente da cidade em que leciono, procuro me inteirar sobre a história do local, assim como sobre o patrimônio histórico cultural da área (material e imaterial) para levar a discussão para a sala de aula. A relação com patrimônio histórico, muitas vezes, pode ser facilitada, se houver uma apropriação por parte da comunidade sobre os bens culturais que se referem a suas origens.

Pela Carta de Veneza, entende-se que é dada à comunidade a responsabilidade pela conservação de seus monumentos históricos, uma vez que eles representam a configuração material de uma memória coletiva. E, a partir disso, esses bens culturais são elementos constituintes da identidade de um povo.

Artigo 1.º A noção de monumento histórico engloba a criação arquitectónica isolada, bem como o sítio, rural ou urbano, que constitua testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significativa ou de um acontecimento histórico. Esta noção aplica-se não só às grandes criações, mas também às obras modestas do passado que adquiriram, com a passagem do tempo, um significado cultural.

Nesse sentido, a comunidade envolvida com o patrimônio histórico cultural em questão é sua maior guardiã, uma vez que o bem (móvel ou imóvel) faz parte da maneira como ela se reconhece historicamente. “O processo de se conhecer o patrimônio envolve a participação dos sentidos e, principalmente, a manifestação de um sentimento de reconhecimento diante do bem cultural, seja ele material ou imaterial.” (MALTÊZ et al., s.d). É importante que os alunos entendam a questão, inclusive para que possam participar das discussões sobre as intervenções que podem vir a ser feitas nesses monumentos, uma vez que a cidade continua viva e precisa também atender às demandas de seus moradores. Pode parecer assunto “de adulto”, mas, quanto antes essa discussão é iniciada na escola, mais efetivos serão os resultados na preservação dos bens culturais.

Na prática da sala de aula, podemos estimular essa relação, a partir de uma noção da história da cidade que parta da maneira como os alunos se enxergam no espaço em que vivem. É preciso que eles se sintam parte do patrimônio e se apropriem dele, como algo inerente a quem eles são.

Essas iniciativas, muitas vezes, nos trazem divertidas surpresas na maneira como a questão é apreendida e sensibilizada pelos alunos. Em certa ocasião, numa palestra de Educação Patrimonial com alunos do 7º ano, após falar sobre os conceitos de patrimônio e mostrar os bens culturais da cidade, discutíamos sobre as funções dos conselhos de patrimônio, formados por membros da comunidade, para decidir sobre obras de restauração em casas do centro histórico. Imaginei uma situação e expus aos alunos o problema: Eu moro lá no bairro Matosinhos, do lado da Matriz. Vou fazer uma reforma e quero colocar aquelas portas de blindex bem na frente da minha casa. Será que o conselho de patrimônio histórico vai aprovar? E escutei um sonoro Nããããããããooooo. Mantendo o personagem, retruquei: Mas a casa é minha!!! E ouvi, MARAVILHADA, de um dos alunos: Mas ela tem valor pra comunidade!!!

Essas experiências de troca com os alunos me respondem à mesma questão todos os dias: Porque eu sou professora? De História? E me trazem também a única resposta possível: Que outra profissão me proporcionaria momentos como esse? Nenhuma. 

Referências:

ANDRADE, Carlos Drummond. O maior trem do mundo. Jornal O Cometa Itabirano. Itabira, 1984.

Carta de Veneza. Disponível em:

<portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Carta%20de%20Veneza%201964.pdf>.

(Acesso em: 17 out. 2017.)

MALTÊZ, Camila R. et al. Educação e patrimônio: o papel da escola na preservação e valorização do Patrimônio Cultural. Pedagogia em ação, v. 2, n. 2, p. 39-49, nov. 2010.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós são seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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