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COLUNA DA MAURA BRITTO: O professor e a pesquisa: um dilema

Texto 5

Na última sexta-feira, depois de um tempo reestabelecendo compromissos profissionais e pessoais, reiniciei minhas atividades acadêmicas, que ficaram um pouco suspensas, após a minha defesa de mestrado, em 2011. Comecei uma disciplina isolada no doutorado em História, afim de retomar discussões teóricas acerca de minha pesquisa sobre o universo o ofício de ferreiro entre homens de cor, no século XIX, em Minas Gerais.

A sensação de recomeço e o impacto de perceber que já se passaram sete anos entre uma experiência e outra me fizeram pensar sobre os desafios que o professor enfrenta, no que se refere à necessidade de conciliar realização profissional, bem-estar material e vida pessoal. Necessidade que, nem sempre, se estabelece sob a forma de uma possibilidade real. Estamos sempre numa “corda bamba”, “entre a cruz e a espada” nesse sentido.

Quando entrei no mestrado, eu tinha um cargo na Secretaria de Educação de Minas, que correspondia a 18 aulas semanais. Trabalhava à tarde e deixava o turno para estudar. Também não entrei na pós-graduação logo após me formar em História. Entre um e outro acontecimento, me mudei de cidade duas vezes, fiz uma pós-graduação, tive que procurar emprego para me manter sozinha, passei no concurso para professora, perdi meu pai, entre outras coisas. Tinha 27 anos. Já era “velha”, se pensarmos que muitos alunos já saem da graduação aos 22 e ingressam direto no mestrado. Por outro lado, eu não tinha filhos, então ainda era possível organizar meu tempo de acordo apenas com as minhas necessidades.

Durante a especialização, consegui licença no trabalho, mas sem remuneração. Fiquei um ano me dedicando quase que exclusivamente à pesquisa, o que foi fundamental para o resultado final do trabalho – e que só foi possível devido à bolsa de pesquisa que recebi da FAPEMIG, em convênio com a UFOP. Eram R$ 1.200,00 para custear minhas despesas pessoais (aluguel, alimentação, internet, telefone), transporte para outra cidade duas vezes por semana para frequentar as aulas e, ainda, para participar de congressos pelo país afora. Ufa! Era pouco, mas alguns de meus colegas não tinham nem isso – e ainda há quem critique o financiamento público à pesquisa nas universidades federais!

No início de 2011, tive que retornar ao trabalho, pois minha licença tinha chegado ao final. O mestrado ainda não estava concluído, mas já tinha me rendido dois novos empregos. Faltando poucos meses para a defesa, eu tinha 48 aulas por semana, em três escolas diferentes e um capítulo inteiro para terminar de escrever, o que só consegui fazer em função da greve dos servidores estudais da Educação em Minas, que me deu 40 dias pra respirar e escrever, escrever e escrever.

Todas essas dificuldades me mostraram duas coisas:

1ª – A necessidade absoluta de investimentos públicos para garantir o financiamento da pesquisa e da formação continuada do profissional da Educação;

2ª – Como é falaciosa a ideia de que professor é acomodado e não se qualifica porque não quer. Os obstáculos para a qualificação profissional são de várias ordens, desde tempo para a preparação para a seleção, condição financeira para frequentar as aulas e realizar a pesquisa, e conciliar o tempo com a prática de trabalho em sala de aula.

No que se refere à minha epopeia particular, demorei alguns anos para conseguir organizar minhas atividades de trabalho de modo que eu, novamente, tivesse tempo para me dedicar, por enquanto, a uma tentativa de ingresso no doutorado. Após a primeira aula, na semana passada, outra coisa ficou ainda mais clara para mim: minha felicidade está necessariamente relacionada à experiência de estar em uma sala de aula. De estar dos dois lados desse processo. Não que esse seja o aspecto mais importante de minha vida, mas todos os outros aspectos dela perdem completude quando esse não acontece.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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