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COLUNA DA MAURA BRITTO: O presente é todo meu!

Texto 14

Nesta semana, minha turma de 9º ano me escolheu para ser a paraninfa da turma. Fiquei muito emocionada e também refleti sobre o significado desse convite.

Comecei a lecionar nessa escola no ano passado e este foi meu primeiro contato com eles, quando estavam no 8º ano. A gente foi se conhecendo e se aproximando ao longo desses dois anos.

Estou na condição de professora contratada nessa escola e meu contato com as turmas tem prazo definido para acabar desde o início do ano letivo. Por isso, eles sempre perguntavam: Fessora, você vai dar aula pra gente ano que vem? E eu sempre respondia: Não sei. Só em janeiro é que vou saber.

Essa instabilidade profissional é realidade na vida de muitos de nós, professores. Trabalhando como designados, à medida que o fim do ano vai se aproximado, surge também a angústia sobre como será o próximo ano, pois as contas continuarão a chegar mesmo após o fim do período letivo e do contrato de trabalho. E, em janeiro, acontece um novo “leilão” de aulas. Um processo extremamente desgastante e que nem sempre termina como a gente deseja ou espera. Uma dúvida que, certamente, interfere em nossa prática docente.

Da minha parte, tento lidar com essa insegurança de modo que ela não me impeça de oferecer aos meus alunos o meu melhor naquele momento em que estou com eles. Toda relação interpessoal é construída no cotidiano e as que permanecem são aquelas marcadas pela reciprocidade. Enxergar o outro é tão importante como ser visto. E nenhuma dessas esferas pode ser negligenciada para que os dois lados do processo sejam contemplados. E isso vale para a sala de aula, tanto quanto para a vida.

Acho que foi essa atitude que permitiu a criação desses laços entre mim e minha turma do 9º 03, mesmo havendo a consciência, de ambas as partes, sobre a efemeridade da nossa relação. O cuidado mais importante é com o hoje.

Muitas vezes, interrompi uma aula expositiva para ouvir seus dilemas adolescentes. Outras tantas, tive a colaboração, a atenção e o interesse deles, mesmo o conteúdo sendo extenso, pois sabíamos que aquilo era importante. E a gente seguiu assim nesses dois anos: aprendendo e ensinando uns com os outros. Resolvendo nossos conflitos enquanto a História servia de tema para os nossos encontros – mesmo que não soubéssemos o que iria acontecer no ano que vem.

Diz-se que paraninfo é aquele que tem a função de aconselhar os formandos (concluintes, no caso do Ensino Fundamental II) ao final de uma etapa de sua escolarização. Se a experiência que eu tive com esses alunos me permite dar a eles algum conselho, é exatamente o que aprendi com eles: quando a gente oferece ao outro o nosso melhor, independentemente das circunstâncias, o maior presente somos nós mesmos que recebemos ao final. Obrigada, 9º 03!

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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