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COLUNA DA MAURA BRITTO: O lugar que te cabe

Texto 2

Na vida de professor, até que se alcance a famosa “estabilidade”, a gente está hora aqui, hora ali, passa por duas, três escolas em um ano e vai seguindo o barco conforme aparecem as oportunidades de trabalho.

Essa incerteza, muitas vezes, dificulta o trabalho, pois não temos a garantia de que estaremos na mesma escola no próximo ano, então não podemos elaborar um projeto pedagógico de ação a médio prazo. Nossa relação com os alunos e suas realidades fica limitada pelos dias letivos do bimestre e espremida por semanas de provas. Mas há de se tirar algo de bom em toda experiência.

Em uma dessas idas e vindas da vida profissional, depois de muitos anos concursada em áreas urbanas, fui trabalhar novamente em áreas de distrito. Como sabemos, Minas Gerais é formada por mais de 800 municípios, muitos com cinco ou seis distritos. Muitas vezes, são vilarejos pequenos, afastados da sede por mais de cem quilômetros, com vias de acesso não asfaltadas e mal conservadas. Por causa de chuva, economia de verba ou falta de transporte escolar, algumas vezes, as férias escolares começam mais cedo.

As dificuldades de transporte não foram o que mais me impressionou naquele ano. O vilarejo em que fui trabalhar fazia parte da área das antigas minas do ouro que, a partir do século final XIX e do início do XX, passaram a ser exploradas de maneira mais sistematizada por causa do minério de ferro – grande fonte de renda de muitas cidades mineiras ainda hoje. Depois de algum tempo, as empresas começaram a ampliar a área de exploração e foram comprando casas e indenizando moradores. O que, antes, era uma cidadela próspera, elo comercial de outras várias cidades através da ferrovia, transformou-se num núcleo de 250 moradores, espremidos pela área da mineração.

Lembro-me do susto que tomei quando cheguei à escola no primeiro dia de aula! A escola, uma igreja (remanescente dos primeiros moradores do século XIX), uma quadra e a mina, com toda aquela terra vermelha que impregna os sapatos e a memória. E lá, lá embaixo, depois da linha do trem, aos poucos, surgiam os alunos, em grupos pequenos, seguindo a rua da quadra que daria no portão da escola.

Ao longo do ano, fui me aproximando mais dos alunos. Ficava pensando em como contribuir significativamente para a vida deles, fazendo algo mais que terminar o conteúdo do livro didático. E fui adaptando minha prática: as aulas de História permitem ao professor fazer contextualizações com o cotidiano e, entre uma Revolução Industrial, o Ciclo do Ouro, as pirâmides egípcias e a República Velha, abri espaço para conversas e descobertas – deles em relação a mim, e minhas em relação à eles.

Descobri a lenda do velho do vilarejo que virava um porco à noite e fazia barulhos, que eles ouviam quando iam caçar (sim, eles caçavam!); e que muitos deles nunca tinham ido à Ouro Preto, cidade sede do distrito onde moravam. Descobri também muitos casos de abuso sexual com crianças, de famílias desestruturas por casos de violência doméstica. De adolescentes que mal descobriam a sexualidade e já passavam a ser objeto dos olhares dos homens que trabalhavam na mina e que faziam parte do caminho que elas percorriam de casa à escola.

Voltava pra casa aflita: de sono, do desconforto da viagem, da poeira, do tempo de deslocamento, mas, sobretudo, da angústia sobre o que eu faria ali. Como eu poderia ajudar? Ao mesmo tempo, era uma lição enorme de como a gente se ilude com as progressos pessoais na carreira, títulos, cargos, reconhecimento profissional e o mundo todo à nossa volta girando independentemente disso, e colocando de cabeça para baixo a vida de outras pessoas que você sequer conheceria se não fosse por sua profissão.

Tornei-me um pouco mais próxima dos alunos. Como as turmas eram pequenas, era possível conversar, se fazer ouvir, mas, principalmente, ouvir. Às vezes, eles só queriam falar! Só iam à escola pra sair um pouco da realidade de casa. A escola era só uma janela, uma porta de saída, apenas, pouco importando onde ela ia levar.

Situações como essas nos fazem pensar que, às vezes, o conteúdo é o que menos importa!

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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