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COLUNA DA MAURA BRITTO: Mês da mulher?

Texto 4

Estamos chegando ao fim do mês de março. Mês que se dedica às mulheres. Historicamente, atribui-se ao dia 8 de março a comemoração do “Dia da Mulher”, numa referência ao episódio do incêndio de uma fábrica, em Nova York, em 1911, que levou à morte de cerca de 130 trabalhadoras.

A própria história da data é controversa e carrega em si um teor de silenciamento do papel das mulheres na luta por melhores condições de trabalho, no início da era industrial. Segundo a socióloga e professora Eva Blay (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP), a criação de uma data em referência ao papel da mulher na sociedade foi motivada “por fortes movimentos de reivindicação política, trabalhista, greves, passeatas e muita perseguição policial”, e não apenas como uma homenagem póstuma às operárias de New York. Antes mesmo do episódio da fábrica incendiada, já era notório o papel das trabalhadoras e líderes mulheres na busca por melhores condições de vida e de trabalho, em um universo fabril em que elas começavam a ser vistas como mão de obra (a quem se pagava menos que aos homens, desde lá). “Em 8 de março de 1857, em Nova York, as operárias têxteis entraram em greve pedindo a redução da jornada de trabalho de 16 para 10 horas por dia e recebendo menos que um terço do salário dos homens. Parte das grevistas foi trancada no galpão e a fábrica foi incendiada. 130 delas foram carbonizadas”, reforça a tese, a cientista política Lucia Avelar, professora da Universidade de Brasília.

Nesse sentido, atribuir apenas ao episódio do incêndio de 1911 a razão para a criação de um Dia da Mulher, como forma de destacar seu papel em nossa sociedade, de certa maneira, acaba por deixar no escuro todo o histórico anterior de luta feminina no mundo do trabalho. Na Primeira Guerra Mundial, devido à duração do conflito e ao emprego maciço dos homens em idade produtiva no campo de batalha, as mulheres foram chamadas às fábricas para a produção de armas e alimentos. Após 1919, coube a elas, novamente, o espaço doméstico do lar como o seu, a priori. E a luta por espaço no mercado de trabalho continua até os nossos dias.

Essa discussão se faz importante, ainda hoje, principalmente, porque, para além das violências simbólicas do cotidiano, ainda é uma luta feminina a garantia de igualdade no mercado de trabalho, assim como nas relações sociais e familiares. E, muitas vezes, a luta é pelo direito à vida, ao próprio corpo, à escolha de um/a companheiro/a, ou de ser só.

Em levantamento de 2105, no Brasil, chegamos a índices alarmantes de violência contra a mulher:

- Dos 4.762 assassinatos de mulheres registrados em 2013, 50,3% foram cometidos por familiares, dentre os quais, em 33,2% dos casos o crime foi cometido pelo parceiro ou pelo ex-companheiro;

- Em 10 anos, o número de homicídios entre as mulheres negras cresceu 54%;

- 85% das mulheres brasileiras tem medo de sofrer violência sexual;

- 3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em seu relacionamento;

Esses dados mostram o quanto a discussão sobre gênero é fundamental na escola. Crianças não nascem machistas, e nem cientes de qualquer tipo de discriminação. Esses comportamentos são culturais e adquiridos, na maioria das vezes, no ambiente familiar. Criar crianças com definições de “cor de menino e cor de menina”, “brinquedo de menina e brinquedo de menino”, “trabalho de menino e trabalho de menino”, de maneira naturalizante, fortalece posturas machistas que não só limitam a autonomia das meninas, mas favorecem o crescimento de meninos que, quando adultos, potencialmente, poderão reproduzir os dados citados acima. É papel da escola também mudar esse quadro. Principalmente porque, muitas vezes, são os pais que serão “reeducados”, na medida em que as discussões feitas na escola começarem a reverberar em casa.

No mês da mulher, uma mulher negra foi executada com quatro tiros na cabeça após retornar de um evento político. Uma mulher negra, lésbica, da periferia do Rio de Janeiro, que dava voz a milhares de pessoas que se sentiam representadas em sua trajetória e por suas ideias. E essa mulher, mesmo depois de morta, teve de provar sua inocência e a dignidade de sua vida, em função dos boatos que viralizaram na internet sobre quem era Mariele Franco.

No mês da mulher, e em todos os outros do ano, na escola e em casa, precisamos falar de igualdade, precisamos apontar o dedo para os nossos problemas. Pois só assim poderemos encontrar um caminho para resolvê-los.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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