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COLUNA DA MAURA BRITTO: Eu e a escola

Texto 19

Desde que me entendo por gente, escola tem a ver com minha vida. Meu pai também era professor de História e, durante boa parte de minha infância, ele foi diretor de uma faculdade de Ciências Humanas, em Itabira. Quando eu não estava na escola, na minha aula, estava em casa fazendo tarefa, vendo TV, andando de bicicleta, pintando ou brincando na rua com meus vizinhos – só depois da tarefa pronta. Então, estudar sempre foi valor e rotina em minha vida.

Me lembro de estudar para as provas de Ciências com minha mãe... Naquela época da “decoreba” ainda. Um questionário enorme sobre células, mitocôndrias e retículo endoplasmático! E eu me lembrava dos nomes pela imagem que tinha deles no quadro, na hora que a professora explicou a matéria. Até hoje, minha aprendizagem é, em grande medida, visual. Preciso registrar o que leio. E, se fecho os olhos e penso no momento em que retive a informação, ela volta à minha cabeça.

Eu sempre gostei de ir à escola. Gostava de encontrar os meus amigos, pular elástico antes da aula ou ficar brincando naquela árvore toda enroscada que tinha na Pracinha do Pará, e que nem existe mais. Já quando era adolescente, eu gostava de ir por causa das aulas... Já tinha em mente que eu precisava tirar boas notas, porque tinha que aprender e passar no vestibular... Isso aos 13 anos!

Quando fui para o Ensino Médio, encontrei um motivo a mais: o grupo de teatro do colégio! Como eu gostava daquilo! No primeiro ano, o professor de Literatura organizou um festival de teatro entre as turmas. A gente teria que escrever, dirigir e encenar uma peça. E teria concurso, premiação e medalhas para todas as categorias: melhor texto, direção, ator, atriz (principal e coadjuvante), cenário, figurino etc.! Passei o semestre inteiro “respirando” aquele festival. Eu e uma amiga escrevemos o texto: Pra não dizer que esquecemos as flores. Um drama de uma família durante a ditadura militar. Na década de 1990, os adolescentes não só sabiam que ditadura era algo ruim, como faziam questão de mostrar que tinham entendido o recado da juventude de outra época!

Já na faculdade, comecei a dar umas escapadinhas das aulas... Porque eu também já tive 20 anos! Matava aula na cantina, conversando com as amigas ou me preparando para algum evento do fim de semana. Mas continuava estudiosa. E na escola. Comecei a dar aulas já no 2º período, pegando pequenos momentos de substituição de professores. Na primeira vez que entrei em uma sala de aula, tinha 19 anos e era quase da mesma idade que os alunos! Desde então, não saí mais!

Hoje, aos 37 anos, depois de 16 anos de formada, continuo sendo apaixonada pela escola. Não sei em que medida meu ambiente familiar impactou nisso. Ou se boa parte disso sou eu mesma! O que eu sei é que meu lugar é em sala de aula. Mas todo dia, quando me levanto para trabalhar, também me pergunto: o que será que faz com que meus alunos se levantem todos os dias para ir à aula? Será que a escola é, para eles, o espaço de alegria que foi para mim? Será que, algum dia, eles vão se lembrar das minhas aulas com o mesmo carinho que me lembro das aulas de Literatura e do grupo de teatro do colégio? Eu não sei nenhuma dessas respostas... Mas essas perguntas são também mais um motivo pra que eu continue gostando de ir à escola.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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