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COLUNA DA MAURA BRITTO: Do outro lado da carteira

Texto 15

Uma coisa que sempre me impressionou, nesses anos todos de sala de aula, é a facilidade que temos – me incluo nisso! – em assumir os comportamentos que criticamos em nossos alunos quando nos sentamos do “outro lado da carteira”.

É só ter uma reunião pedagógica ou uma palestra interdisciplinar e nos colocarmos no papel de ouvintes que nós, professores, passamos a agir como se não soubéssemos o quanto é ruim estar em uma situação em que nosso público-alvo não nos dá atenção.

Alguns dias atrás, participei de um evento na área da Educação, oferecido pela Universidade Federal de Ouro Preto e no qual estavam presentes professores da universidade, do Instituto Federal Minas Gerais e da rede municipal de Mariana. O tema, bastante atual para quem lida diariamente com jovens, era o uso das TIC’s (Tecnologias da Informação e Comunicação) na sala de aula. Assunto bastante polêmico e que precisa ser seriamente discutido pela classe docente, pois ignorar a importância dessas tecnologias no cotidiano e nas formas de aprender dessa geração é ignorar parte da identidade de nossos alunos – o que, fatalmente, nos afasta cada vez mais deles. (Desse assunto, trataremos em outro texto).

Já no início da palestra, um episódio me chamou atenção. Antes mesmo da professora começar sua fala, um professor – que, assim como eu, estava na condição de aluno – já veio quase “atropelando” a mim e minha colega. Estávamos sentadas na ultima fila, próximas à parede, e nosso colega, desesperado por se sentar perto de uma tomada para carregar o celular, passou rápido, quase por cima de nós duas, derrubou minha garrafa d’água – pelo que não se desculpou e muito menos a apanhou do chão –, parecendo pensar apenas em seu telefone, que não podia ficar sem bateria. E por ali ele ficou boa parte do tempo da palestra, atento ao que estava acontecendo fora dali e que chegava até ele pela internet do smartphone.

Fiquei pensando: será que, na sua aula, aquele professor permite que seus alunos o ignorem solenemente para passarem o período de 50 minutos vidrados à tela do celular? Acredito que não. Mas foi exatamente assim que ele ficou por quase metade da palestra que estávamos assistindo.

Certas reuniões dentro da escola também me deixam com a mesma sensação. A gente sempre chega atrasado, fala todo mundo junto sobre assuntos aleatórios e demoramos uns 15 a 20 minutos para conseguir iniciar a pauta. E quando tem que preencher algum dado?! Vixe! Reclamação na certa! Eu não sei o que acontece, mas parece que, quando a gente muda de “lugar” na sala, a gente vira mesmo aluno! E esquece até do que nos incomoda tanto quando estamos lá, do “outro lado da carteira”. Não sei que tipo de comportamento psicológico provoca isso no ser humano professor e não estou me excluindo disso! Pelo contrário: também vejo o WhatsApp na hora da reunião, rabisco a agenda quando não quero prestar atenção e espero que o tempo passe rápido para que aquele compromisso acabe logo!

E o que é mais triste é que, quando voltamos para o “outro lado da carteira”, o do professor, nem sempre temos os mesmos olhos para enxergar as razões desses comportamentos entre os nossos alunos! Talvez devêssemos trocar sempre o “lado da carteira” em que nos sentamos, para conseguir entender com mais clareza o que se espera e o que se pode fazer de melhor em cada um desses lugares de uma parte da experiência da humana chamada Educação.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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