Return to site

COLUNA DA MAURA BRITTO: Do início. De hoje. Do futuro que espero

Texto 3

Escrevo hoje, às vésperas de meu aniversário. 37 anos. Momento bom pra refletir sobre o caminho até aqui. O que seguir. O que deixar pra trás. O que deixar para quem chega.

Venho de uma família de professores. De pai e mãe. E de avós letrados, que sempre deram valor para a educação.

Essa herança cultural fez com que, desde pequena, a escola e a necessidade de estudar fossem muito naturais pra mim. Sou da época em que a gente brincava de queimada na rua, mas só depois de terminar o dever. E quando digo “sou da época que” não é com aquela nostalgia cega que atribuiu ao passado méritos que nem sempre ele tem. É apenas pra tecer o sentido de trajetória.

Estudei em escola pública do Ensino Fundamental I até o Ensino Médio. Estudava para as provas com minha mãe “tomando” de mim a lição. De mitocôndrias à falésias, passando por expressões algébricas.

Meus pais trabalhavam fora, então, em casa, a Jaqueline cuidava da gente (de mim e de minhas duas irmãs). Acordava cedo para pegar o ônibus pra ir pra escola. Mas o café com leite já estava na xícara, à minha espera. Era o tempo de tomar e sair correndo pra não chegar atrasada.

Desde os oito anos, fui criada com muita autonomia nas minhas responsabilidades escolares. Mas também com apoio emocional. O que me dava tranquilidade para sonhar com meu futuro. E cheguei até aqui.

A essa altura, imagino que o leitor já esteja pensando: qual o propósito desse roteiro quase narcísico em um texto que deveria nos fazer refletir sobre Educação? Chegaremos à essa questão.

Hoje, estava próxima da escola quando acabou a aula do turno da tarde. Fiquei observando meus alunos saindo da escola e imaginando o que eles fariam quando chegassem em casa. Como professora do Ensino Fundamental II em escola pública, me lembrei da Maura aluna e fiquei refletindo sobre os alunos da professora Maura. Será que eles têm alguém em casa que os auxilie com o dever? Será que o tempo livre pode ser usado para o seu divertimento? Amanhã, quando eles acordarem, que preocupações estarão ocupando seus pensamentos?

Sei que, ao contrário de mim, muitos de meus alunos não têm em casa pai e mãe. Não têm alguém com formação suficiente para ajudar com a tarefa. Que muitos deles têm, inclusive, que cuidar de outros irmãos mais novos, quando chegam em casa. Que há angústias maiores no cotidiano deles do que a nota na prova de História.

Cada dia que eu chego na escola e ouço os problemas que os atordoam, eu fico pensando no sentido que precisamos dar pra nossa prática. Não basta haver uma legislação que torne gratuito e obrigatório o acesso à escola a todas as crianças a partir dos três anos. Não basta garantir livro didático para todos os alunos se o mundo que se abre ali não pode ser alcançado por todos! Estamos ainda muito distantes de uma educação plena e que gere autonomia se condições mínimas de existência fora da escola não estão garantidas para todos os alunos.

Só conseguiremos convencer nossos alunos sobre a importância da escola, de sua formação para que haja uma perspectiva de futuro, quando a escola estiver aberta a perceber esse aluno como um sujeito na sociedade, com suas necessidades e expectativas! Sei que muito dessa realidade ultrapassa o papel do professor. Mas ela não pode ser ignorada pelo professor. Nem como docente em sua prática, e nem como ele mesmo, também sujeito ativo em uma sociedade que faz com que as possibilidades que foram dadas à Maura aluna não sejam praticadas aos alunos da Maura, hoje professora! A transformação dessa realidade, cabe sim, à nós, professores!

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly