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COLUNA DA MAURA BRITTO: Consciência negra na escola

Texto 20

No mês de novembro, discute-se a questão da consciência negra em todo o Brasil. E a escola, como espaço de construção de conhecimento e de convívio social, não pode ficar de fora. Mas, antes de relatar sobre a atividade que desenvolvi com meus alunos, gostaria de comentar alguns aspectos sobre o assunto.

Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que nem sempre tive o entendimento que tenho hoje sobre a questão negra, racismo e o papel da escola e do Estado no enfrentamento de preconceitos, assim como na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Embora sempre tivesse a noção do quanto a nossa sociedade é racista e de que os 300 anos de manutenção do sistema escravocrata deixaram muitas marcas para a população negra, a visão que tenho hoje é fruto de leituras que fiz ao longo do tempo e de experiências vivenciadas em meu dia a dia. O professor é, antes de tudo, uma pessoa comum, e a vida também nos traz várias lições diariamente.

Fui criada dentro de uma família de classe média branca e, como qualquer outra família de classe média branca, muitas vezes, temos naturalizado, em nosso comportamento, posturas que refletem práticas racistas, ainda que não tenhamos consciência e/ou intenção de agir dessa forma. Eu demorei um tempo de vida para não achar normal, por exemplo, que ajam mais pessoas negras do que brancas trabalhando na limpeza das ruas e das escolas onde trabalhei. Da mesma forma, por muito tempo, não fiz a mim mesma uma pergunta que hoje sempre faço a meus alunos: Quantos professores negros vocês têm? Essa naturalização de lugares sociais é reflexo de uma sociedade que vende a ideia da democracia racial ao mesmo tempo que nega oportunidades iguais a todos os seus cidadãos. E tudo isso é consequência não só da escravidão, mas da maneira como o Estado brasileiro, ao longo do século XX, continuou cerceando direitos às populações descendentes dos escravizados. O direito à escola, por exemplo, por muito tempo, após a abolição, permaneceu sendo negado aos negros – e isso teve efeito nas possibilidades de emprego e renda de uma família negra por várias gerações.

Hoje em dia, devido ao maior acesso à informação e à instituição de políticas públicas que visam democratizar o ingresso à educação superior à população negra, como é o caso da política de cotas, o tema ganhou espaço não só dentro das universidades, mas no dia a dia da população como um todo. O aumento de alunos negros nas universidades promoveu também um aumento no número de pesquisas acadêmicas ligadas à história, à cultura e aos direitos da população negra no Brasil. E a disseminação dessas pesquisas em diversos setores da sociedade também tem promovido uma mudança na mentalidade e no comportamento das pessoas negras e também das pessoas brancas, como eu. Ler os trabalhos de intelectuais, como Djamila Ribeiro, Lélia Gonzalez ou Sueli Carneiro, foi fundamental para que eu compreendesse melhor situações em que, pela cor da minha pele, eu não vivencie diretamente. E mudou também a forma como eu trabalho essa questão em minha prática docente.

A Lei no. 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do Ensino Fundamental até o Ensino Médio, também foi crucial para a mudança de perspectivas sobre a história do negro no Brasil. Até então, a história do negro nos livros didáticos iniciava-se a partir de sua inserção no mundo colonial ibérico como mão de obra escrava. Não se fazia referência à riqueza e aos conhecimentos técnicos das civilizações africanas milenares e muito mais antigas do que o mundo ocidental europeu. E toda contribuição que esses saberes africanos tiveram na formação do povo e das cidades brasileiras era negligenciada. A própria terminologia “escravo” passou a ser questionada. Hoje, usa-se, preferencialmente, o termo “escravizado” para deixar clara a violência imposta a essa condição e evitar a naturalização da associação entre o negro e a condição de escravo. Até porque a prática da escravidão já acontecia na humanidade desde as primeiras civilizações e se verificou entre povos de diversas etnias: brancos, negros e orientais.

Todas essas mudanças teóricas tiveram resultados práticos na construção da autoestima dos alunos negros e do entendimento sobre a valorização da cultura negra em nossa sociedade. E o Dia da Consciência Negra é fundamental para isso. Não que o combate ao racismo e a busca por melhoria e acesso a direitos e igualdade para a população negra deva se restringir a esse dia ou ao mês de novembro. Essa luta deve ser diária e precisa ser um compromisso de todos nós, porque, enquanto não tivermos todos os mesmos direitos, oportunidades e tratamento, independentemente da cor da pele, não podemos acreditar que todos somos iguais. Enquanto isso não for realidade na nossa prática, não adianta estar assim escrito em nossas leis.

Tendo essa concepção, nesse ano, fiz questão de convidar algumas pessoas para falar sobre o tema no dia em que a escola onde trabalho dedicou ao tema da Consciência Negra. A comunidade em que trabalho é formada por descendentes de quilombolas e os meus alunos são praticamente todos negros. Então, que sentido faria, para eles, que eu, branca, falasse o que significa ser negro do Brasil? Ciente disso, entrei em contato com pessoas que estudam o tema para que fossem a escola conversar com os alunos.

A atividade foi dividida em três momentos. No primeiro momento, Douglas Aparecido, graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), falou aos alunos sobre o tema OuTro Preto: elevação da autoestima pela busca da inteligência ancestral e destacou a questão dos saberes africanos e da origem das populações que vieram para a região de Ouro Preto e Mariana, no período da extração do ouro – e que é a origem desses alunos também. No segundo momento, Aida Anacleto, formada em História também pela UFOP, tratou do tema Valores civilizatórios africanos e ministrou oficinas de confecção de bonecas abayomi e de turbantes com os alunos. No terceiro momento, Letícia Afonso, graduada em Música, também pela UFOP, desenvolveu a oficina A funcionalidade da voz através dos vissungos, jongos, samba de coco, samba de coco e cantos da tradição oral. Ou seja, pessoas negras, todas com formação universitária, falando aos alunos negros, descendentes de populações quilombolas, sobre sua história e os valores de sua cultura.

A questão da representatividade é fundamental para que esses alunos saibam de si e busquem caminhos de crescimento pessoal e profissional, e que tenham orgulho de quem são e de suas origens. O resultado, nos dias seguintes, além do momento tão importante representado por esse encontro, foram meninas soltando os cabelos, usando as faixas e turbantes da oficina para ir à aula. E isso não é apenas uma questão de estética. Tem um significado simbólico de reconhecimento e da autoestima desses adolescentes que dá a eles a certeza de que nada pode limitá-los! E toda essa mudança de perspectiva entre eles só foi possível porque esses temas passaram a fazer parte do cotidiano escolar a partir da instituição do Mês da Consciência Negra. Ou seja, a ação da escola só tem sentido se ela contribui para a transformação da própria sociedade.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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