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COLUNA DA MAURA BRITTO: A escola, a adolescência e as drogas

Texto 9

Durante esse tempo em que leciono, diversas vezes acompanhei iniciativas das escolas de refletirem sobre o uso de drogas, a violência e a criminalidade juvenil. Algumas vezes, a discussão se faz a partir de projetos interdisciplinares, junto ao próprio corpo docente, outras vezes, a partir de instituições que trabalham com dependentes químicos, a Polícia Militar, entre outras entidades.

Percebo que ainda há certo distanciamento entre o discurso, que visa informar e prevenir sobre o uso de drogas, e a realidade vivenciada pelos alunos, alguns já usuários. Existe um certo “moralismo” com relação à questão, que nada ajuda na conscientização, de fato. Via de regra, apresenta-se os tipos de drogas e seus efeitos, a dependência, que se inicia nas drogas mais fracas e segue para as mais fortes, e a descrição de um destino sempre trágico para o usuário: pode virar traficante, ser preso ou morto. Destrói famílias inteiras, causa graves problemas sociais para outras pessoas.

Tudo isso pode mesmo acontecer, mas creio que a forma como isso tem sido discutido com os adolescentes no universo escolar não atinge o “x” da questão. E, várias vezes, escuta-se o burburinho: Você fala isso porque você não usa, fessô, seguido de risos e piadas. Realmente, é um erro tratar a droga como algo que é “ruim” quando se trata de adolescentes. Muitos já experimentaram, conhecem e gostam desses efeitos alucinógenos. É preciso abordar a sensação de prazer que o uso de drogas causa e ressaltar que, apesar disso, outras consequências também virão.

Também percebo um discurso de poder, de discriminação social, quando se trata o traficante sempre como o cara da favela, que alicia os menores para ser “aviãozinho”. Em algumas palestras que assisti nas escolas, criou-se mesmo um estereótipo visual, a partir de fotos e de encenações didáticas: o adolescente, na maioria das vezes, é negro, usa boné de aba reta, se veste como os ícones da musica pop, faz caras, bocas e poses... Muitas vezes, este é, inclusive, o jeito que os alunos estão vestidos. É uma criminalização já gratuita daquilo que não segue um determinado padrão. Associa-se, automaticamente, a pobreza com a violência, as drogas e a criminalidade – o que já é uma violência ideológica que só contribui para reproduzir preconceitos e ainda mais violência.

Por outro lado, nunca presenciei, nas escolas onde lecionei, discutirem sobre a descriminalização do uso de drogas como uma forma de regulamentar a venda e de eliminar, assim, a violência que o tráfico gera justamente por ser proibido. Para mim, esse é o ponto central sobre o qual se deve refletir.

É preciso ultrapassar esse discurso de criminalização, até para que os alunos que já usam drogas, tenham liberdade para falar a respeito e o professor possa orientá-lo quanto a isso. Numa relação de confiança e respeito, a partir de um viés que não trate o usuário como um bandido ou futuro traficante em potencial. Muitos desses jovens não têm espaço para conversas dessa natureza em casa. A escola pode participar desse processo, mas a abordagem sobre o tema precisa ser feita também a partir do que os alunos já vivenciam. Suas impressões, opiniões e dúvidas precisam ser consideradas.

Essa é uma discussão que gera polêmica, mas a escola precisa se adaptar à realidade vivida pelo seu corpo discente. Falar sobre o uso de drogas da forma como tem sido feito não alcança o objetivo, que é prevenir o uso e acabar com os danos socais provocados pelo tráfico.

(Eu sou a Maura Britto. Professora e mestre em História, apaixonada por patrimônio histórico, que canta, dança e não vive sem arte. Busco um mundo onde o que queremos para nós não seja distinto do que fazemos aos outros. Acredito na educação. A sala de aula é o meu lugar.)

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