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COLUNA DA MARIA DA GRAÇA MOREIRA: Aprender e ensinar com o corpo inteiro

Texto 3

Como aproximar as pesquisas acadêmicas ao contexto escolar?

Não é raro imaginar que as pesquisas desenvolvidas pelos alunos de programas de pós-graduação das universidades estão distanciadas do dia a dia da escola ou que são somente para leitura de alguns. Já ouvi vários depoimentos de diversas pessoas, até mesmo de professores, pontuando que a academia é um ambiente teórico, que muitas vezes não capta ou retrata a complexidade da sala de aula.

Um fato relevante que contribui para desconstruir esse equívoco é que os programas de pós-graduação são bastante frequentados por educadores ou profissionais ligados à educação envolvidos em refletir sobre sua prática, instigados a aprofundar o entendimento de questões ou a refletir sobre temas com os quais conviveram ou foram instigados pelas atividades do contexto educacional.

Gostaria de ilustrar essa coluna tomando como exemplo algumas pesquisas que versam sobre temas que emergiram da prática pedagógica e que nos ajudam a compreender melhor o dia a dia na sala de aula, nos revelam novos olhares sobre tópicos cotidianos ou, ainda, nos incitam a pensar sobre algo novo.

Uma interessante pesquisa de mestrado, de autoria de Lenita Ponce, intitulada Educação na cultura digital, um desafio corporal, aborda o lugar do “corpo” de nossos estudantes no processo de ensino e aprendizagem.

Já pensaram sobre o corpo na educação?

Nós somos nosso corpo!

Parece evidente, mas, ao analisar o tema com maior profundidade, passei a refletir sobre uma colocação da pesquisadora: os alunos não vão à escola apenas com seus cérebros e deixam o corpo em casa, assim, o processo de aprendizagem não deveria focar apenas o desenvolvimento da aprendizagem “cognitiva”, descolando a cabeça do restante do corpo. Os alunos, certamente, não aprendem apenas com a cabeça. Como separá-los?

Façam silêncio, entrem em fila, pensem com a cabeça, permaneçam sentados, desliguem o celular, levantem a mão quando quiserem falar ou precisarem sair para tomar água...

Essas são frases que nos acostumamos a ouvir, seja como alunos em nossa trajetória escolar, ou mesmo como professores... Tais falas estão tão presentes em nossas histórias que pouco refletimos sobre suas origens ou consequências.

Os corpos dos alunos são há muito tempo disciplinados a ficarem bem organizados (em fileiras, por exemplo), sentados grande parte do tempo, calmos, com movimentos controlados, com horários e atividades definidos e, preferencialmente, desconectados de qualquer acesso à internet. Podemos identificar horários bem definidos para uso do corpo: o “movimento” é para a hora do recreio, para os esportes ou para as aulas de Educação Física, e a cabeça (o “pensar”) é para a sala de aula, para aprender...

Mas o corpo é integral e está sempre em movimento, como a vida... É nosso contato com o mundo e nossa identidade, sejam nas semelhanças ou nas diferenças. O corpo interage com o mundo e com as pessoas e vai se modificando com o tempo e com os acontecimentos. Sente sono, fome, alegrias, desapontamentos, dores, surpresas e reage a tudo isso.

Dessa forma, ao focar o cérebro no processo de ensino e aprendizagem, deixamos de lado inúmeras possibilidades de articular as experiências corporais, as descobertas, as potências, o autoconhecimento e o conhecimento do outro. Considerar o corpo é considerar o aluno como um todo.

Retomando o início de nosso diálogo, sobre a aproximação entre a academia e a escola, posso afirmar que, após ler o texto desta professora, certamente não mais me esquecerei de levar o corpo para a aula e de planejar as atividades considerando o aluno como um todo.

E você, professor, já refletiu como integrar o “corpo” no processo de ensino e aprendizagem na Matemática, na Língua Portuguesa ou no seu componente curricular?

Referência:

PONCE, Lenita. Educação na cultura digital, um desafio corporal. 2018. 112 p. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-graduação em Educação: currículo, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018.

(Eu sou Maria da Graça Moreira, professora da pós-graduação em Educação: currículo, em Novas Tecnologias na Educação da PUC SP. Acredito na leitura crítica e na escrita no mundo e na cultura digital, com nossas palavras.)

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