Return to site

COLUNA DA MARIA ALZIRA LEITE: Por mais relações dialógicas no "para casa"

Texto 9

O homem não pode ser apenas objeto de uma explicação, produto de uma só consciência, de um só sujeito, mas deve ser também compreendido, processo esse que supõe duas consciências, dois sujeitos, portanto, dialógico

(FREITAS, 2002, p. 24-25).

O “para casa”, “atividade de casa” ou, ainda, “tema” é uma prática, principalmente, nos Ensinos Fundamental e Médio, que abre espaço para inúmeras discussões. Vários pesquisadores defendem, inclusive, que essa ação tem pouco efeito sobre o aprendizado dos estudantes.

Na verdade, se pensarmos em exercícios que simplesmente reproduzem os conteúdos ministrados em sala de aula, de forma mecânica, acredito que, realmente, não têm muito sentido! Como também não há coerência no agir automático em aula. Talvez o problema não esteja no “tema de casa”, mas na maneira como ele é elaborado, conduzido e orientado.

Deixo claro que não vou reproduzir, neste texto, os discursos cujas ideias prezam por uma atividade de casa desafiadora – que estimule a pesquisa. Vários teóricos já enfatizam essas concepções nesse viés. Vou defender, aqui, o “para casa” como um momento de diálogo.

Como professora, observo que as crianças e os adolescentes necessitam das trocas. Diante disso, penso que o “para casa” poderia também ser elaborado num viés mais discursivo, que ultrapassasse, por exemplo, a resolução de um problema matemático e/ou que identificasse a resposta adequada, no exercício de Português.

Nessa linha, poderíamos investir em construções de questões cuja orientação fosse ao encontro da participação dos pais. Exercícios de narração – tais como relate as experiências positivas na escola; comente sobre o convívio com os colegas; descreva as atividades recreativas mais prazerosas... – poderiam legitimar o diálogo e o convívio. Como docente e pesquisadora, acredito que as exposições, nesse nível, possuem um viés mais afetivo, cujo enredo aproxima pessoas, resgata memórias e, ainda, oportuniza a verbalização.

Lembro-me que, quando criança, esperava ansiosa o meu pai chegar para me auxiliar nas atividades escolares. Na verdade, eu queria estar junto, sentir a sua presença e segurança, ali, do meu lado. Hoje, compreendo que não estávamos tão preocupados com os erros e/ou acertos da tarefa. Estávamos, sim, acentuando a nossa convivência na composição do narrar da minha história, em um determinado dia.

Então, quem sabe, não podemos aproveitar o “tema de casa” para legitimar as relações familiares? Isso talvez possa contribuir, inclusive, para uma aproximação da família com a escola.

(Eu sou Maria Alzira Leite, professora transformadora, pesquisadora de temas que envolvem discursos de/sobre professores. Atualmente, estou como docente no Centro Universitário Ritter dos Reis/UniRitter, em Porto Alegre-RS.)

Referência:

FREITAS, Maria Teresa de A. A abordagem sócia histórica como orientadora da Pesquisa Qualitativa. Cadernos de Pesquisa, n. 116, p. 21-39, jul. 2002.

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly