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COLUNA DA MARIA ALZIRA LEITE: O que é uma aula?

Texto 4

L’intelligence individuelle n’est qu’un moment,

qu’une expression d’un processus plus complexe, de nature sociale.

(DOISE; MUGNY, 1997)

O mês de março é um período de muito trabalho nas universidades, de modo geral. Nessa ocasião, nós, professores, procuramos agendar as defesas, finalizar as leituras das dissertações e teses, orientar os alunos para um momento, que, talvez, seja o de maior importância na vida acadêmica: a conclusão do seu estudo.

Seguindo esse movimento de pesquisa, num ritmo constante, as aulas na graduação e na pós-graduação também precisam ser dinamizadas e concluídas. É nesse ponto que convido a todos para refletirem sobre o conceito de aula.

O que é uma aula? Não gostaria, aqui, de lançar uma definição determinada, cristalizada na nossa formação acadêmica. Pretendo investir na coprodução de um significado que faça sentido, considerando o nosso cenário educacional. Nesse viés, com o intuito de continuar a primeira indagação, pergunto: como abordar certos conceitos? Como aliar as concepções teóricas ao nosso agir? Quem é o nosso aluno? Como lidar com as nossas fragilidades e, também, com as dos outros? As respostas, aqui, quem sabe, podem nos auxiliar na elaboração de um projeto e no cumprimento das ações.

Trabalho, então, com a ideia das possibilidades, pois sabemos que, em poucos minutos, o nosso planejamento pode ruir, diante, por exemplo, dos eventos dentro da aula.

Na última semana, vivenciei um “desmoronamento”. Cheguei em sala, com a minha programação, acompanhada de uma estagiária. Cabe destacar que os alunos que participam da disciplina são discentes que trabalham o dia inteiro, compartilham cadeiras com períodos heterogêneos e vivem o início de uma realidade docente desfavorável, com o desprestígio da nossa profissão. Mesmo assim, eles resistem! Alguns não sabem se querem experienciar a docência, mas estão ali: no tropeçar dos erros, tentam acertar. Às vezes, têm sucesso; outras vezes, não. Nas tentativas, eu, como educadora, e eles, como discentes, procuramos caminhar, tendo em vista os nossos objetivos.

Na última segunda-feira, o meu planejamento girava em torno de tópicos relativos à leitura e à produção textual. Iniciei de maneira expositiva, dialongando com pequenos vídeos para debates e atividades, ou seja, tudo parecia “certo”. Em um dado momento, abri espaço para a socialização de um trabalho. Essa tarefa já tinha sido combinada na semana anterior. O grupo responsável pela atividade discorria sobre os gêneros textuais/discursivos. Apresentaram conceitos e exemplos. No final dessa atividade, um dos integrantes do grupo exibiu, no slide do Power Point, um meme com a imagem de um homem acima do peso, com poucos dentes. O homem, com cabelos compridos, pêlos no corpo, trajava uma saia, mini blusa e estava sorrindo. Havia, ainda, um enunciado no texto, mais ou menos assim: “Essa menina saiu de casa na sexta-feira. Vamos orar para que ela continue desaparecida!”.

Quando o aluno apresentou o meme, por um segundo, pensamos que haveria uma discussão, por parte do grupo, sobre o modo de organização daquele texto, a partir da intencionalidade e do movimento das representações naquele gênero. Porém, o integrante disse que, para concluir o trabalho, decidiram apresentar aquela imagem para descontração, para rirmos. Segundo ele, era um “fechamento” de modo irreverente. Ficamos paralisados, pois aquela imagem – as linguagens verbal e não verbal – orientavam a preconceitos negativos sobre o feminino e o masculino, sobre o feio e o belo, entre outros. De repente, alguns colegas, indignados, se levantaram e se posicionaram sobre aquela figura no slide. Houve um período muito conturbado, de grande desgaste emocional, pois os posicionamentos ficaram bem violentos. Agressões verbais emergiam. As ofensas de um lado e do outro se entrelaçavam!

Aquela aula, toda planejada, virou um caos! Eu tentava acalmar os ânimos, tentava abrir um espaço de discussão sobre a apresentação. Depois de alguns minutos, conversamos sobre o ocorrido. Palavras como respeito, formação, crenças e valores eram convocadas para reflexão e foram postas discursivamente no papel. Orientei os alunos a escreverem sobre aquela aula, considerando a tarefa, o conteúdo, a apresentação, o comportamento de todos!

E a aula? E o planejamento? E as minhas certezas? Ah!!! Penso que diversos acontecimentos compõem o gênero de atividade aula; não há um conceito fechado, limitado. Os acontecimentos podem guiar as reconstruções da nossa prática e, ainda, abrem espaço para pensarmos acerca das nossas fragilidades e dos nossos limites. Diante disso, o conceito de aula se reformula diante das inúmeras situações. Acredito, assim, que o vivenciar a docência talvez seja o primeiro passo para a formação do professor. Quero dizer que os conceitos postos para nós na graduação, relativos ao ser professor, só podem ser visualizados na e pela docência.

Referência:

DOISE, W.; MUGNY, G. Psychologie sociale et développement cognitif. Paris: Armand Colin, 1997.

(Eu sou Maria Alzira Leite, professora transformadora, pesquisadora de temas que envolvem discursos de/sobre professores. Atualmente, estou como docente no Programa de Pós-graduação do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter, em Porto Alegre-RS.)

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