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COLUNA DA MARIA ALZIRA LEITE: E vamos nos ressignificando

Texto 3

O real não está na saída nem na chegada:

ele se dispõe para a gente é no meio da travessia...

(ROSA, 1986, p. 86)

O mês de fevereiro marcou, de forma significativa, a minha construção enquanto profissional. Refiro-me à construção, pois acredito que a nossa maturidade como docente vai se ressignificando com o crescimento do outro. E isso é maravilhoso! Em momentos assim, percebemos, claramente, que a interação professor-aluno dá sentido ao processo educativo!

Há dois anos, numa cidade do interior do sul de Minas, iniciei a orientação de duas alunas. Uma delas pedagoga e a outra licenciada em Língua Portuguesa. Ambas foram aprovadas na seleção para o mestrado em Letras. Com mais ou menos 20 anos de experiência em sala de aula, essas alunas, professoras e, agora, mestrandas, desenhavam-se distantes do cenário acadêmico, porém próximas da realidade de sala de aula.

Os primeiros meses de orientação e aulas foram bem difíceis! O “rigor” acadêmico, pautado em abordagens teóricas, emudecia a turma, e também as orientandas. Foram vários os momentos em que eu conversava e orientava “sozinha”. O silêncio pairava! O silêncio gritava! A situação melhorou um pouco quando ambas escolheram o objeto de pesquisa. Temática e teoria começaram a se relacionar. Assim, ficavam mais à vontade para conversar. Porém, outros desafios emergiam: a escrita do projeto, a defesa do projeto, o letramento acadêmico. Em vários momentos, após explicar a dinâmica da escrita de textos, eu ouvia: Tá. Mas, e agora, como eu faço para colocar no papel? A caminho de casa, conversando comigo mesma, afirmava: Eu tenho que chegar até elas! O cenário precisa ter sentido para elas! Como foi desafiante para nós!

Lembro-me ainda da qualificação do projeto de uma delas. A banca o considerou muito fraco! O que tínhamos: os modos de dizer não dialogavam com a escrita acadêmica. A fundamentação estava para ser construída e as análises eram tímidas. A aluna/professora, em prantos, quase desistiu. Nesse dia, novamente, fui para casa, muito reflexiva e pensando: Que distância é essa? Falamos tanto em inclusão, em aprendizado, em formação e, no final, somos cruéis! O nosso papel em bancas, muitas vezes, não tem sido o de contribuir, mas sim, o de “desvalorizar” o trabalho o outro. Pergunto-me: o que fazemos com o erro? Com a inadequação teórica e/ou escrita? Fechamos os olhos?

Sinceramente, eu não consigo ser assim! A minha aposta está realmente no melhor que os alunos podem produzir, considerando as suas histórias com a leitura e com a escrita. Vejam bem: não estou dizendo que não devemos problematizar. Penso que as críticas são produtivas, desde que tenham um caráter reflexivo. Precisamos ter um tom para o dizer. Isto é: O seu estudo possui muitos problemas, mas acredito que o caminho X poderia ser uma possibilidade.

Durante a orientação, trabalhamos arduamente para que esses estudos fossem compreendidos!

Apesar de não ter podido estar lá com elas e concluir a orientação, tenho certeza de que os estudos – A construção da imagem de Januário Garcia no documentário O Sete Orelhas e Posições discursivas e construção das imagens dos sujeitos educadores no filme Como estrelas na terra: toda criança é especial – atenderam as nossas expectativas!

O que posso dizer? Que as pesquisas, repletas de uma história de formação escolar e experiências, possam inspirar outros alunos/professores! Lembrem-se: nas entrelinhas das dissertações/teses, existe um pouco das nossas vivências e ressignificações ao longo do processo! Agradeço a oportunidade de crescer junto com todos!

Referência:

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 20 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

(Eu sou Maria Alzira Leite, professora transformadora, pesquisadora de temas que envolvem discursos de/sobre professores. Atualmente, estou como docente no Programa de Pós-graduação do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter, em Porto Alegre-RS.)

 

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