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COLUNA DA MARIA ALZIRA LEITE: E agora, professor? Ele sabe mais do que você!

Texto 2

“[...] o inesperado surpreende-nos. É que nos instalamos de maneira segura em nossas teorias e ideias, e estas não têm estrutura para acolher o novo. Entretanto, o novo brota sem parar. Não podemos jamais prever como se apresentará, mas deve-se esperar sua chegada, ou seja, esperar o inesperado” (MORIN, 2004, p. 30).

No dia a dia, geralmente, compartilhamos, com colegas da profissão, amigos e familiares, as nossas experiências negativas de sala de aula. Experiências que envolvem o lidar com os alunos, com o aprendizado e com o fracasso. Na realidade, estamos à procura de vivências que possam nos orientar numa dada situação.

Porém, tenho notado, há um bom tempo, que os nossos discursos negativos se sobressaem. Falamos recorrentemente das dificuldades de aprendizagem, dos “maus” alunos, das notas baixas e reiteramos, às vezes, que muitos jovens não sabem nada! Nas últimas semanas, comecei a refletir: será que estamos numa situação confortável diante do outro, o que não sabe? Será que a minha imagem de possível conhecedor vai se legitimando na medida em que eu comando a situação em sala de aula?

Mas por que comecei a pensar sobre isso?

Ao longo da minha trajetória, enquanto professora, deparei-me com muitos alunos bons em termos de maturidade para um determinado nível escolar, de criticidade e de fundamentação. Faço referência, aqui, então, aqueles que se destacam, em, praticamente, 100%, em avaliações formativas e somativas. Esse público é rotulado como gênio, nerd, CDF. Frequentemente, usam óculos, andam com livros e estão sozinhos.

No semestre anterior, um aluno da pós-graduação me chamou a atenção pelo seu conhecimento em torno da disciplina. Mas não me refiro a um saber, pautado somente no conteúdo, mas naquele que também cerceia a prática e as resoluções de problemas. Convivendo com ele e conhecendo um pouco da sua história, perguntei-me: que aluno eu tenho? Um aluno que domina outros idiomas e aprende sozinho. Um aluno que teve a sua formação em escola pública e que se destaca perante aos demais! Quando eu vou para a sala de aula expôr o conteúdo, ele está muito além de mim! E, para completar a situação, fui designada para ser sua orientadora. E, sendo franca... No início, deu vontade de fugir.

Mas não me esquivei. Procurei alternativas para uma interlocução baseada na troca de conhecimentos, ao estimular o aluno a compartilhar o seu saber, por meio de trabalhos em grupo, apresentações de trabalhos, minicursos e publicações.

Na última semana, andando pelos corredores da instituição na qual trabalho, vejo esse aluno ministrando uma oficina. E, ainda, muitos outros discentes participando daquele momento. Aquela cena veio corroborar com os meus anseios: independentemente da habilidade, eu acredito no aluno! Eu acredito na Educação! Só podemos fazer diferença, dar a oportunidade para o outro. Não importa se a representação é positiva ou negativa. Podemos sempre aprender no percurso do caminhar!

Referência:

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Trad. Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya. Rev. técnica Edgard de Assis Carvalho. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2004, p. 30.

(Eu sou Maria Alzira Leite, professora transformadora, pesquisadora de temas que envolvem discursos de/sobre professores. Atualmente, estou como docente no Programa de Pós-graduação do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter, em Porto Alegre-RS.)

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