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COLUNA DA MAISA DE FREITAS: Primeiro dia de aula

Texto 1

Em uma manhã de agosto de 2012, eu entrei na escola com antecedência e lá alguns professores já aguardavam no corredor próximo à secretaria com um semblante um tanto desconfiado. Era o momento da designação, uma seleção de professores ainda não concursados para ministrar aulas nas escolas públicas, como era o meu caso. Eu era recém-licenciada em Geografia, acabava de fazer 24 anos e tinha apenas meus documentos e um diploma na mochila. No momento em que a diretora chegou, entreguei a documentação necessária, assim como os demais, e esperei ansiosamente por um está tudo certo com os seus documentos, você tem uma vaga! Se desse certo, seria o meu primeiro dia de aula como professora.

Eu nunca havia pensado nisso até então, que os professores também têm os seus primeiros dias de aula. A vaga apareceu e eu fiquei bem feliz, mas não tive muito tempo para comemorar. A diretora, após anunciar a vaga, também me disse: Depois que você assinar os documentos, já pode ir para a sala, a sua aula começará logo em seguida! Fiquei em choque! Até então, eu não sabia que o sistema funcionava dessa maneira e eu não havia preparado nenhuma aula. Imaginei que teríamos um tempo posterior para preparar os conteúdos e nos organizar. Afinal, que matéria eu daria? Eu não sabia nem em quais turmas iria lecionar! Ingenuidade minha, ou despreparo mesmo, coisa de iniciante.

Comecei a ficar nervosa e, com isso, me atrapalhei nas assinaturas dos documentos. No espaço disponível para preencher a data referente àquele dia, coloquei a minha data de nascimento. Não podia rasurar, pedi outra folha com constrangimento para repetir o processo, ao mesmo tempo em que queria retardar aquele instante para respirar e raciocinar sobre o que faria na sala de aula com alunos que eu nunca tinha visto. Deu tempo apenas de pensar: Por que eu não perguntei antes como isso funcionava?

Assinei os documentos e fui orientada a pegar os meus horários na secretaria. Feito isso, finalmente, fui para a primeira aula. Era uma sala apertada com, aproximadamente, uns 30 alunos do Ensino Fundamental – não me recordo se era 7º ou 8º ano. Eles me olharam desconfiados e logo alguns disseram a mesma coisa que todos os estudantes sempre dizem quando tem um professor novato, não importa a geração: Cadê a professora X? Certamente, eu estava sendo avaliada: minha roupa, minha fisionomia, minha voz, se eu era brava, se eu era “boba” etc.

Reuni todo o meu autocontrole, me apresentei e disse que eu substituiria a professora X até o fim do ano. Torcia para que eles não percebessem algum traço de nervosismo, aquele que embarga a voz, que nos faz tremer e gaguejar.

A melhor forma que encontrei para começar o meu primeiro dia de aula foi tentar conhecê-los e saber qual era a impressão deles sobre a matéria. Isso sempre soa muito clichê ou “coisa de professor que quer enrolar”, mas, naquele momento, eu precisava me familiarizar. Você sabe por que estuda Geografia? A dinâmica gerou diversos comentários e outras perguntas, expliquei algumas, tentei explicar outras e... O sinal tocou, o tempo passou rápido.

Aprendi coisas significativas no meu primeiro dia de aula. Aprendi que professor não nasce pronto, que a experiência docente se constrói no fazer cotidiano, não bastando o diploma. Aprendi também que é preciso saber o sentido daquilo que se ensina para saber orientar os alunos quando eles não souberem. A tarefa não é fácil, mas logo aprendi que ela se faz com uma boa dose de interação e boas perguntas.

(Eu sou a Maisa de Freitas, colunista da rede Professores transformadores. Sou professora de Geografia e mestra em Educação. Atuo na rede pública de ensino e acredito que pequenas ações realizadas em parceria possuem um grande poder transformador.)

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