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COLUNA DA MAISA DE FREITAS: Por que você está chorando?

Texto 5

Ao chegar na escola em uma manhã quase fria de segunda-feira, já me sentia cansada antes da primeira aula começar – seriam dez naquele dia. A semana anterior havia sido muito pesada, com muitas demandas para serem resolvidas. Contas para pagar, matéria de concurso para estudar, problemas de família para resolver e, em meio a isso, as roupas para lavar, e-mails para responder, fazer compras no mercado etc. Quando a mente anda pesada, tudo acaba por se misturar e o estresse chega. Encarar turmas lotadas nessas condições pode acabar se tornando uma tarefa mais pesada que de costume. Nessa segunda-feira, entretanto, ocorreu uma situação na escola que me fez (re)pensar a complexidade dos nossos problemas cotidianos.

Ao entrar na sala para a terceira aula, fui avisada por uma das alunas que uma colega chorava copiosamente. Logo que eu a avistei, pedi para que ela me acompanhasse para fora da sala para que eu pudesse saber a causa do choro. Ela mal podia balbuciar o motivo de tanto que as lágrimas rolavam, e eu não estava entendendo nada. Pedi para que ela tomasse uma água, respirasse e me contasse novamente o que havia acontecido. No desenrolar da história, eu soube que era uma questão de desentendimento entre ela e uma grande amiga da sala.

Pensei nos meus problemas e pensei no problema dela. A princípio, passou pela minha mente: Jura que você tá chorando por isso? Afinal, a vida adulta demanda de nós muito mais responsabilidades do que um pequeno desentendimento entre duas jovens. Mas, depois, refleti que ela não era adulta, era uma adolescente lidando com as questões do tempo dela e a amizade da colega importava muito. Não dava para menosprezar seu sofrimento.

Eu não poderia resolver o problema, mas poderia incentivá-las a resolverem o mal-entendido. Foi a pequena ação que fiz: um “empurrãozinho” para que elas conversassem. Coisa simples para mim, não tanto para elas no começo. Voz tremida, respiração ofegante, lágrimas... Comuniquei à diretora e ela me auxiliou, tendo em vista que eu ainda tinha que dar continuidade à aula. Creio que elas fizeram as pazes, pois retornaram bem mais calmas para a sala um tempo depois.

Voltei para casa pensando na importância que damos aos nossos problemas. Os meus não eram menores do que os dessa aluna, mas percebi que os dela também importavam. Faz parte do amadurecimento de qualquer jovem lidar com essas questões cotidianas na escola e é preciso auxiliá-los, dentro das nossas possibilidades e sempre que possível, nesse processo pelo qual também já passamos. Acredito que dar importância para essas pequenas ações contribui para formar adultos capazes de lidar melhor com as emoções.

Da mesma forma, seria muito interessante se os alunos também pudessem compreender os problemas pelos quais os professores passam, serem mais empáticos e respeitosos em situações de grande estresse. Será que isso é possível?

(Eu sou a Maisa de Freitas, colunista da rede Professores transformadores. Sou professora de Geografia e mestra em Educação. Atuo na rede pública de ensino e acredito que pequenas ações realizadas em parceria possuem um grande poder transformador.)

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