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COLUNA DA MAISA DE FREITAS: O debate em sala de aula

Texto 18

Na véspera da semana de provas do mês de outubro, eu já havia terminado o conteúdo do 3º bimestre e feito as devidas revisões com os alunos, portanto, não pretendia ocupar o tempo das aulas restantes com mais repetições da matéria. Queria que os alunos pudessem aproveitar o tempo disponível para tirar dúvidas, o que raras vezes acontece. O que fazer para que minha ideia funcionasse? Pensei em um debate.

Lembrei-me de uma palestra que assisti, no YouTube, com o professor e idealizador do método de ensino da Escola da Ponte, José Pacheco. Ao chegar para falar para um seleto público, a primeira coisa que ele fez foi a pergunta: O que vocês desejam saber? Segundo ele, o teor da palestra deveria acontecer mediante o interesse do público e não a partir da sua própria fala. Eu também queria ouvir os alunos e o que eles tinham a dizer sobre a matéria, cujo tema versava sobre sociedade, consumo e trabalho.

Propus um programa televisivo de debates com o tema geral trabalhado no bimestre. Eu seria a apresentadora e os convidados seriam dois alunos sorteados, por vez, para responder e comentar perguntas feitas por mim e pela plateia composta pelo restante da turma. Foi, então, que a minha garrafinha de água virou um microfone e, antes que eu desse início à fala, um dos alunos, sentado mais ao fundo, pegou um caderno, colocou acima do ombro, como se fosse um o cameraman, e outro se posicionou do meu lado dizendo ser assistente de palco. Após o sorteio das duplas, comecei: Boa tarde, pessoal! No programa de hoje, vamos falar sobre trabalho infantil. Trouxemos dois convidados especiais para discutir o tema conosco. Voltei-me para o primeiro sorteado e acrescentei: É muito comum ouvir que é melhor ver criança trabalhando do que roubando. O que você pode nos dizer a respeito disso?

A postura do estudante mudou na tentativa de organizar o pensamento ao mesmo tempo em que tentava impedir certo nervosismo transparecer em sua fala, enquanto o outro aluno aguardava a sua vez de falar. Mal os dois acabaram de se pronunciar, alunos da “plateia” já levantavam o dedo para tecer comentários. Houve quem concordasse e quem discordasse dos argumentos ditos. Às vezes, era um pouco confuso para administrar tantos alunos querendo se manifestar!

Não é simples organizar um debate com muitos alunos do Ensino Fundamental, ainda iniciantes nessa prática. Aos olhos de quem estivesse passando pelo corredor, poderia parecer que a aula estava um caos, pois causou muito barulho, sobretudo no começo. Por outro lado, os alunos estavam realmente participando e se deixaram levar pela imaginação de um cenário de um programa de TV.

O meu intento era que os alunos chegassem à conclusão de que, embora não queiramos ver crianças roubando, também não queremos ver crianças trabalhando, mas usufruindo de todos os seus direitos e deveres para garantir um futuro mais promissor. As divergências, por sua vez, mostraram que a formação de opinião, aliada aos estudos, é importante e influencia na vida em sociedade, de modo que o diálogo é a melhor ferramenta para propormos soluções. Precisamos aprender também sobre a postura de como fazer um debate. Esperar a vez de falar, falar em tom de voz acessível e respeitoso, não utilizar ofensas, solidificar o argumento com leitura e interpretação de texto, manter a calma diante de outras pessoas etc.

A prática e a consciência de um debate bem estruturado são importantes, ainda mais nos dias de hoje, em que temos nos envolvido em discussões políticas acirradas no Brasil, em função das eleições. As redes sociais têm escancarado um caos de divergências e informações distorcidas, e temos confundindo debate com discussões e ofensas. Por isso e por tudo o que foi dito, a prática do debate é bem-vinda na escola como uma forma de trabalhar não somente o conteúdo em si, mas a criatividade, a oralidade e a tomada de consciência do indivíduo como parte de uma sociedade.

(Eu sou a Maisa de Freitas, colunista da rede Professores transformadores. Sou professora de Geografia e mestra em Educação. Atuo na rede pública de ensino e acredito que pequenas ações realizadas em parceria possuem um grande poder transformador.)

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