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COLUNA DA MAISA DE FREITAS: O aluno, a sala e a janela

Texto 19

A sala de aula é um espaço de grandes conflitos das relações de poder ali existentes entre alunos e professores. Nem sempre é fácil trabalhar dentro da dinâmica das carteiras enfileiradas, da lousa e do pincel e com o professor à frente explanando sobre um conteúdo para uma turma com muitos alunos. Talvez por isso, em determinados momentos, a janela se torna um atrativo interessante, sutil e rápido, e que reaviva a percepção dos estudantes para o que existe do “outro lado”.

Recordo-me que, certa vez, eu ministrava aulas sobre População Economicamente Ativa com uma turma de 7º ano e um aluno interrompeu a aula para mostrar algo pela janela. Do lado de fora, vinha um barulho de maritacas. Ao apontar o dedo em direção à palmeira no pátio da escola, ele nos mostrou inúmeras maritacas nos galhos. A minha expressão foi de surpresa ao ver tantas maritacas juntas. Dada a minha reação, vários alunos saíram de seus lugares e foram em direção às janelas para vê-las. Alguns tiraram fotos e outros filmaram, sob a minha supervisão. Assuntos sobre maritacas surgiram na sala, a respeito do que elas comem ou do barulho que fazem. Um aluno veio me falar, empolgado, que, na casa dele, também apareciam maritacas como aquelas. Depois de um momento de beleza e curiosidade, retomamos a aula.

Em outra turma, ao falar sobre o espaço físico da cidade de Mariana, um aluno me chamou até a carteira, apontou o dedo indicador pela janela e disse que morava no morro perto de uma antena localizada mais acima. Conversamos um pouco sobre as questões do relevo e sobre como isso interfere na nossa vida cotidiana. Em outro dia, ao começar uma chuva forte, muitos alunos dessa mesma turma foram até a janela para, simplesmente, vê-la caindo, impressionados com a sua força.

Emociona-me o fato da curiosidade e da percepção do ambiente se fazerem presentes no cotidiano dos meus alunos, ainda que de maneira espontânea e sutil na sala de aula. Em momentos assim, tento evitar repreendê-los, de imediato, por se levantarem das carteiras e interromperem uma aula já iniciada. Considero, ao contrário, uma aula dentro de outra, afinal, a percepção da paisagem faz parte do ensino de Geografia.

Em alguns momentos, a janela se torna uma “válvula de escape” para alguns alunos que não querem/conseguem prestar atenção na aula. Pelo semblante deles ao olharem para o horizonte, noto que seus pensamentos estão mais interessantes e livres. Em outras situações, a janela também se torna um meio para conversas paralelas com aqueles que passam pelos corredores com a justificativa de que saíram para beber água ou ir ao banheiro. Alguns até me gritam e dão tchau. Nessas situações, acabo chamando a atenção! Afinal, nem tudo são “flores”, uma vez que, na escola onde trabalho, as janelas também podem se tornar um meio para práticas indisciplinares, como fugas e para jogar objetos do outro lado.

A mediação com os alunos no espaço escolar é constante, pois lidamos, nesse ambiente, com corpos, sensações e desejos. De todo modo, desejo que a curiosidade acompanhe os meus alunos para onde forem, pois só ela é capaz de movimentar rumo ao conhecimento. Que muitas janelas se abram para eles e que o outro lado seja um mundo bom a ser conquistado.

(Eu sou a Maisa de Freitas, colunista da rede Professores transformadores. Sou professora de Geografia e mestra em Educação. Atuo na rede pública de ensino e acredito que pequenas ações realizadas em parceria possuem um grande poder transformador.)

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