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COLUNA DA MAISA DE FREITAS: Nem tudo tem a ver com o professor

Texto 14

Desde que constatei o desejo pela carreira docente, durante a graduação, mergulhei intensamente nos estudos referentes à didática e às metodologias de ensino, sobretudo, naquelas alternativas ao ensino tradicional que tanto me identificava. Cheguei a pensar que, um dia, as minhas aulas carregariam em si a renovação de uma geração transformadora quando pusesse em prática tudo o que eu havia aprendido. Nesse processo, contudo, eu desconsiderei uma coisa importante: a realização de uma boa aula não dependia somente de mim.

Percebi esse fato, tempos depois, na experiência cotidiana em sala de aula, quando encontrei minhas primeiras grandes dificuldades para colocar em prática as coisas que havia aprendido e almejado na graduação. Deparei-me, ao longo do caminho, com alguns alunos extremamente desinteressados, dispersos, desanimados. Por mais que eu tentasse estimulá-los, nada parecia funcionar, pois era visível que os mesmos não viam sentido no que estavam fazendo e se, por “milagre”, faziam, era por mera obrigação e não por participação. O que mais eu poderia fazer?

Muitos desses alunos podem enfrentar grandes problemas pessoais que fogem ao nosso controle. Drogas, violência, separação, abandono, doenças, carência. Como chegar à escola disposto a estudar nessas circunstâncias? Como produzir uma “super” aula que supere esses problemas? Não existe forma, mas, infelizmente, muitas vezes, acabamos nos sentindo culpados por não desempenharmos bem o nosso trabalho, delegando a nós mesmos um certo fracasso e responsabilidade por situações que jamais poderíamos controlar e que impedem um processo pleno de aprendizagem.

Para dificultar o processo, as estratégias para desenvolver um trabalho diferenciado esbarram, muitas vezes, nas dificuldades de acesso a materiais escolares e de otimização do tempo disponível para contemplar tantos alunos. Cartolina, massinha, lápis de cor, Datashow, papel, impressões, revistas, dinâmicas, passeios... Quanta dificuldade!

Definitivamente, nem tudo tem a ver, apenas, com o professor, com uma matéria mal explicada ou com uma didática já ultrapassada. Às vezes, o problema é bem maior do que supomos e é preciso reconhecer que jamais daríamos conta de encontrar a “solução” sozinhos. Isso tem a ver com família, com o Estado e com a própria sociedade em que vivemos.

Venho aprendendo, nesse processo, que não devemos nos sentir culpados o tempo todo, que a agressividade ou o desânimo de um aluno, às vezes, tem mais a ver com suas próprias frustrações do que conosco. Devemos nos preocupar em desempenhar um bom trabalho, mas reconhecendo apenas os “erros” que nos cabem e tentar melhorar sempre, dentro de nossas possibilidades, por meio de uma prática do diálogo e do respeito aos nossos alunos. Que não desanimemos de nossa jornada e que ela não seja solitária!

(Eu sou a Maisa de Freitas, colunista da rede Professores transformadores. Sou professora de Geografia e mestra em Educação. Atuo na rede pública de ensino e acredito que pequenas ações realizadas em parceria possuem um grande poder transformador.)

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