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COLUNA DA GISELLI AVÍNCULA: Professor extraclasse e o desafio da visibilidade como educador

Texto 2

Retorno dos professores, semana de planejamento, reunião pedagógica. Chego à reunião já iniciada, cumprimento silenciosamente com sorrisos e piscadelas a equipe, me achego numa cadeira, retiro meu caderninho e tomo nota dos informes para o novo ano letivo. Nada de diferente da rotina de volta às aulas das escolas em todo território nacional, não é?! Entretanto, tem um ator social na escola que integra o quadro da unidade escolar, mas, nesses encontros de equipe, por vezes, é invisibilizado: o professor extraclasse.

Nos últimos anos, com a readaptação de função, tenho me sentindo estrangeira e exótica nas escolas de uma rede em que fui professora regente durante 8 anos ininterruptos. Sempre fui do time que “veste a camisa”. Propunha projetos interdisciplinares, motivava professores e alunos, e celebrava as culminâncias como expressão maior do dinamismo e vivacidade da comunidade escolar.

Como professora de Sociologia, tive um duplo desafio: tornar aulas atrativas e dotadas de sentido para os discentes do Ensino Médio regular, formação de professores e EJA, bem como lutar pela legitimação de uma disciplina que tem uma trajetória de intermitência no currículo escolar brasileiro (Sociologia e Filosofia tornam-se obrigatórias novamente na grade curricular da rede de ensino público e privado a partir de 2010).

Diante desta realidade, venho me percebendo e identificando escalas de valores atribuídas aos profissionais da Educação e às práticas pedagógicas. Em inúmeras reuniões e conselho escolares de diferentes unidades de ensino em que transitei, enquanto professora extraclasse, não é assegurado ter uma fala direcionada ao professor que continua em atividade, embora fora da regência de turma.

Por diversos momentos, obtive êxito em articular parcerias com docentes e membros do corpo técnico-pedagógico. Em outros, a dificuldade de ter acesso à turma devido à organização enrijecida de disciplinas no quadro de horário e da priorização do tripé professor-aluno-sala de aula me encaminhou a me oferecer e ser requisitada para “ajudar” a equipe diretiva e a coordenação pedagógica na minha rotina de trabalho.

Auxiliar nas demandas burocráticas, na confecção de materiais informativos, na feitura de murais, monitorar o deslocamento dos alunos nos espaços, ajeitar mobiliário, distribuir livros didáticos, organizar pasta de arquivos e até representar a escola em reuniões externas, como nas coordenadorias regionais, secretaria de Educação ou noutras unidades de ensino, são algumas atividades que, pronta e solidariamente, já realizei.

Ser o “faz tudo”, “braço amigo” ou “pau pra toda obra” nunca foram exigências por parte da equipe diretiva e pedagógica. Pelo contrário, voluntariamente, me disponibilizei, na maioria das vezes, para realizar tarefas fora das minhas atribuições. No entanto, essa disponibilidade e solicitação recorrentes sinalizam uma problemática: a visão seccionada do processo de escolarização e prática pedagógica, pois parte do entendimento, dos próprios professores readaptados e da equipe, de que os docentes extraclasse, na maior parte do tempo, estão ociosos e/ou disponíveis para doar braços e pernas no que for preciso.

Há um “esquecimento” do próprio docente e dos demais, que o profissional fora da regência de turma tem uma história, bagagem, saberes, prática pedagógica que lamentavelmente são invisibilizados e/ou subaproveitados.

Enquanto agente de leitura, ações realizadas por mim e/ou por outros agentes, de fato, potencializam o processo de ensino e aprendizagem: as atividades de contar e convidar contadores de história articuladas com os conteúdos para algumas disciplinas, a conversa com autores de livros para aprimoramento da criticidade, a elaboração de fanzines que estimulem a produção textual e pesquisas, torneio de xadrez, saraus, rodas de leitura e debate, entre outras.

Emerge daí a necessidade de pensar e de integrar numa rede educadora as práticas pedagógicas heterogêneas entre os variados perfis de profissionais de Educação. Precisamos ouvir as narrativas dos professores extraclasses, como também dos profissionais da esfera administrativa e de apoio, para trilhar o caminho da integração e do protagonismo. Torná-los, sobretudo, visíveis e incluídos a fim de qualificar o processo de escolarização e de sedimentar a sonhada inclusão, que passa pelo reconhecimento da diversidade da prática social dos atores presentes na escola.

(Sou a Giselli Avíncula, professora de Sociologia, mestra em Ciências Sociais e bacharelanda em Terapia Ocupacional. Hoje, atuo como agente de leitura. Alimento a teimosia da minha alma educadora, acredito na inteligência emocional e na potencialidade dos fazeres humanos para sensibilizar o potencial por conhecer.)

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