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COLUNA DA GISELLI AVÍNCULA: Professor como adulto referência

Texto 7

Durante a 19ª Parada Gay de São Paulo, em 2015, a atriz Viviany Beleboni, que é transexual, fez uma performance na qual se crucificou com intuito de representar as mortes e a violência contra o movimento LGBT. À época, tal encenação causou polêmica entre religiosos e também nas redes sociais e eis que, horas depois, no aplicativo do Messenger, havia uma mensagem para mim de um ex-aluno pedindo minha opinião sobre essa questão.

Muito comum, nos tempos de redes sociais, professores estenderem sua tarefa pedagógica para além das paredes da sala de aula. Sugerem-se atividades escolares e/ou indicações educativas em blogs, sites, perfis pessoais na internet. No entanto, é nítido observar que publicações e comentários nas páginas das redes sociais, sobretudo Twitter, Instagram e Facebook, têm norteado alguns alunos e ex-alunos, que acompanham os perfis dos seus professores, sobre alguma temática de relevância, como racismo, orientação sexual, identidade de gênero, corrupção, descriminalização das drogas, aborto, reforma da previdência...

Por hora, recai-se, sobre o professor, a responsabilidade social sobre a natureza de suas publicações no mundo cibernético. Nesse sentido, sinalizo as reflexões de Fernando Seffner (2016) sobre a idoneidade da figura do mestre como aquele que detém expertise científica e é um adulto de referência no universo escolar. Explico. A formação profissional e a prática pedagógica são caracterizadas pelos saberes da disciplina, saberes do docente e pelo professor como adulto referência comprometido com tarefas próprias do espaço público.

Para Seffner, o professor domina e se atualiza a respeito dos conteúdos disciplinares de sua formação de origem; realiza práticas voltadas para o cotidiano escolar, como a transposição didática dos conteúdos acadêmicos, estratégias de avaliação, organização do espaço da sala de aula e acompanhamento do processo de ensino e aprendizagem; e, mais ainda, apresenta análises sobre as questões que contemplam a vida social, econômica e política, bem como das culturas juvenis, amparado em diretrizes das políticas públicas, sem o empobrecimento da visão do senso comum.

Há movimentos, como o Escola sem Partido, que distorcem a dimensão formativa da prática docente que atua para além dos conhecimentos disciplinares. Tal ação pedagógica é alinhada às políticas públicas tanto educacionais, quanto vinculadas ao avanço do Estado Democrático de Direito. Nesse sentido, o desconhecimento e/ou a resistência de dinâmicas mais progressistas no seio da sociedade culpabilizam o professor de realizar doutrinação dos alunos, quando, na verdade, o trânsito de professor para adulto referência visa corroborar para melhorias nas trajetórias pessoais e escolares dos estudantes.

A citação da filósofa política Hannah Arendt traduz bem as dimensões que vinculam os saberes do professor e o adulto referência na prática educativa:

A autoridade do educador e as qualificações do professor não são a mesma coisa. Embora certa qualificação seja indispensável para a autoridade, a qualificação, por maior que seja, nunca engendra por si só autoridade. A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém, sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo. Face à criança, é como se ele fosse um representante de todos os habitantes adultos, apontando os detalhes e dizendo à criança: Isso é o nosso mundo (ARENDT, 2013, p. 239).

O professor adulto referência é o sujeito social que interage e dialoga com crianças e jovens, e que é capaz de mediar conhecimentos além dos saberes disciplinares. A prática docente reflete a competência e a habilidade do professor em contextualizar, através da liberdade criativa e autonomia pedagógica dentro da sala de aula, inúmeras estratégias educativas para esclarecer certos impactos sociais que reverberam na vida dos alunos diante dos assuntos mais diversos.

Referências:

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo, Perspectiva, 2013. 348 p.

SEFFNER, Fernando. Escola pública e professor como adulto de referência: indispensáveis em qualquer projeto de nação. Revista Educação Unisinos, São Leopoldo, v. 20, n. 1, p. 48-57, jan./abr. 2016.

(Sou a Giselli Avíncula, professora de Sociologia, mestra em Ciências Sociais e bacharelanda em Terapia Ocupacional. Hoje, atuo como agente de leitura. Alimento a teimosia da minha alma educadora, acredito na inteligência emocional e na potencialidade dos fazeres humanos para sensibilizar o potencial por conhecer.)

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