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COLUNA DA GISELLI AVÍNCULA: "Cansei de ser professor"

Texto 8

Se fizermos uma breve busca na barra de pesquisa do Google com os termos “Desisto de ser professor”, “Cansei de ser professor” ou “Não quero mais ser professor”, iremos nos surpreender (ou não) com a quantidade de relatos de professores dos quatro cantos do Brasil listando as razões de perderem a esperança, a motivação, a confiança e o prazer de atuar no magistério. A “descoberta” desses relatos e textos partilhados na internet foi uma busca pessoal de encontrar o que meus pares vêm elencando sobre o desânimo de continuar lecionando diante dos desafios que reencontro no retorno à atividade da regência.

No início de maio deste ano, a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro publicou, no Diário Oficial, o indeferimento do meu processo de prorrogação da função extraclasse. Estava afastada desde 2015 por motivo de saúde. Portanto, tive que retornar à classe ainda em acompanhamento ambulatorial do meu quadro psicossocial e na reta final da gravidez – com oito meses de gestação. Pois bem, acatei a ordem e não recorri, por hora, à permanência fora de sala. Afinal, em breve, entrarei de licença maternidade e considerei isso como um “teste” para autoavaliar como se encontra meu quadro clínico.

Pretendo, neste e nos próximos textos desta coluna, abordar os principais motivos listados pelos docentes a desistirem e/ou cansarem do magistério. E, a partir do “meu diário de campo”, partilharei minhas percepções do retorno à regência, evidenciando meus sentimentos, angústias e possíveis caminhos de quem vivencia o “chão da escola” à procura de alternativas de permanência no universo escolar.

Para começar abordemos um dos motivos de abandono da profissão: indisciplina escolar. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que realizou a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizado (Talis, na sigla em inglês), com 32 países, em 2008 e, posteriormente, em 2013, os professores brasileiros ocupam o topo do ranking no gasto de tempo dispensado em administrar a disciplina entre os alunos. Enquanto a média geral entre os professores dos demais países gira em torno de 13%, os profissionais brasileiros utilizam 20% do período de aula em reestabelecer a disciplina na classe.

No meu primeiro dia com a turma, feitas as apresentações e elucidada a minha chegada (e iminente saída devido ao fato de estar prestes a parir), decidi propor um contrato coletivo entre estudantes e eu, com algumas regras a nortear a relação pedagógica nas aulas de Sociologia. Segundo a pesquisa da OCDE, os profissionais que gastam menos tempo com o problema da indisciplina lecionam em escolas mais democráticas e colaborativas. Portanto, em um plano micro (salas de aula), tive o intuito de instaurar um ambiente colaborativo e, didaticamente, ressaltar aspectos, como a institucionalização da vida escolar, a corresponsabilidade, e o caráter deliberativo através do nosso acordo de convivência e combinados. Nessa atividade inicial, destaquei tanto a existência coercitiva de normas e regras das instituições sociais, como a escola, quanto à possibilidade de alargar o protagonismo dos atores sociais no cotidiano escolar entre alunos e profissionais de educação.

Na aula seguinte, apesar do contrato e como era de suspeitar, fiz jus ao título campeão do Brasil ocupar o primeiro lugar no quesito “tempo gasto para manter a ordem na classe, indisciplina e mau comportamento”. Conversas paralelas, brincadeiras em sala de aula, desatenção ao conteúdo disciplinar e a disputa da atenção dos adolescentes com os smartphones foram os desafios. Em algumas turmas, a dispersão e o desinteresse foram contornáveis, sobretudo nas classes que a estrutura física e a gestão escolares são mais estruturadas. Consegui atrair a atenção dos alunos e manter a calma na classe com a proposta de aula menos expositiva e metodologia de ensino voltada para atividades.

Em linhas gerais, ouso sinalizar algumas causas e soluções a partir do debate teórico e da revisão da minha prática docente. As diversas desigualdades sociais, a democratização da escola sem a garantia prévia de uma estrutura básica e a lacuna na preparação do professor para lidar com as diferentes realidades dos educandos interferem negativamente no comportamento dos alunos, subalternizando o ofício de lecionar. A respeito de caminhos para minorar a indisciplina e encontrar aliados para não desistir de professorar, aponto para a necessidade de criar um ambiente mais democrático e colaborativo, ter domínio do conteúdo, saber ensinar para um tipo de perfil e manter os alunos sempre ocupados com atividades que lhes interessem e que exijam concentração.

Esse assunto da indisciplina escolar não tem a pretensão de se esgotar aqui. Seria utópico dar conta de listar as problemáticas e saídas para solucionar um dos motivos do abandono do magistério. Arrisco um olhar, uma experiência, uma partilha de esperança!

(Sou a Giselli Avíncula, professora de Sociologia, mestra em Ciências Sociais e bacharelanda em Terapia Ocupacional. Hoje, atuo como agente de leitura. Alimento a teimosia da minha alma educadora, acredito na inteligência emocional e na potencialidade dos fazeres humanos para sensibilizar o potencial por conhecer.)

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