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COLUNA DA GISELLI AVÍNCULA: A nossa casa

Texto 10

“Na nossa casa amor-perfeito é mato / E o teto estrelado também tem luar / A nossa casa até parece um ninho / Vem um passarinho pra nos acordar / Na nossa casa passa um rio no meio/ E o nosso leito pode ser o mar.”

Estes versos são trechos de uma canção interpretada por Maria Bethânia que inseri na minha playlist para o trabalho de parto. Você deve estar se perguntando o que a escolha da música para um momento tão pessoal e familiar tem a ver com um artigo sobre Educação! Vamos, então, esclarecer!

A formação integral de nossos estudantes também está inserida nas estratégias de escolarização e de ensino e aprendizagem. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) estabelece que assegurar meios de progredir no trabalho, nos estudos posteriores e no exercício da cidadania é a finalidade da Educação Básica. Portanto, questiono-me como os educadores estão colaborando para a construção do nível de senso de comunidade desta geração.

É fato que os desdobramentos da consolidação do sistema capitalista, do encurtamento das distâncias geográficas e culturais pelo fenômeno da globalização, da perspectiva mercadológica sobre a existência veiculada pelos meios de comunicação de massa reforçam o viés individualista, o que fragiliza os princípios e valores do existirmos juntos, do espírito coletivo e da convivência justa e fraterna como objetivo comum.

Não desejo endossar o coro do muro das lamentações, pelo contrário, alimento o otimismo por dias sempre melhores e ponho fé na sensibilização de questões tão caras à humanidade como a construção de uma sociedade justa, fraterna e ética. Com este último termo, cheguei ao assunto do texto: ética.

Segundo o filósofo e doutor em Educação, Mario Sergio Cortella, ética é um “conjunto de princípios e valores de conduta que uma pessoa ou um grupo de pessoas tem”. A palavra se origina do grego Ethos, que significa o lugar onde habitamos. A canção supracitada diz como é “a nossa casa” e as reflexões éticas conduzem a pensar quais são os princípios e valores mais acertados para a “nossa casa”, para a vida coletiva. É pela ética que orientamos nossa capacidade de decidir, de julgar, de avaliar os melhores valores e condutas para a vida em sociedade.

Quero? Devo? Posso? São as perguntas sinalizadas por Cortella que devem nos orientar diante de um dilema ético, que se trata de um conflito individual sobre o caráter das nossas escolhas. Será que nós, professores, estamos indo além dos saberes disciplinares e provocando reflexões éticas? Acredito que a maioria dos educadores sim.

E quando nossos estudantes não estão abertos a desconstruir a ideologia hegemônica do paradigma individualista? Como lidar com as angústias, apesar do exercício da prática docente comprometida e criativa, se não despertam para os objetivos tanto dos “estudos posteriores”, quanto da “formação cidadã”?

Essas preocupações podem ter aflorado devido à iminência do nascimento da minha filha, pois a “nossa casa” também será habitada por ela. Há um provérbio africano que diz “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Assim, sinalizamos algumas respostas sobre os impasses educativos que explicam o porquê de não atingirmos alguns alunos. A escola, e não só o professor como indivíduo, precisa planejar coletivamente as suas ações, enxergar o aluno na sua singularidade, organizar a metodologia, os conteúdos, levando em consideração tanto a esfera socioeconômica quanto o contexto familiar e cultural.

As crianças e jovens precisam sentir que pertencem a uma coletividade, que os inclui sob o paradigma da dignidade humana e de redes tecidas por meio dos laços de afeto. Com essas relações, as pessoas podem se tornar mais éticas e os princípios de integridade e de senso de comunidade gradativamente interiorizados.

Desse modo, ao pensarmos nos nossos estudantes como filhos e cidadãos, é preciso lembrar do provérbio, considerando escola, família, meios de comunicação e as demais instituições sociais como uma “aldeia inteira para educar”. Ademais, a tarefa de ensinar não compete apenas ao professor, é precisa do envolvimento de todos os atores sociais. É nosso dever ético que façamos isso, pois “a nossa casa é onde a gente está / A nossa casa é em todo lugar”.

(Sou a Giselli Avíncula, professora de Sociologia, mestra em Ciências Sociais e bacharelanda em Terapia Ocupacional. Hoje, atuo como agente de leitura. Alimento a teimosia da minha alma educadora, acredito na inteligência emocional e na potencialidade dos fazeres humanos para sensibilizar o potencial por conhecer.)

Referência

CORTELLA, Mário Sergio. Qual é a tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 9ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes 2010. 141 p.

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